domingo, 15 de julho de 2012

[Ano II, No. 20 - 2012] RIO QUE TE QUERO RIO


Heitor dos Prazeres (carioca, 1898-1966), Samba nos Arcos da Lapa. Óleo sobre tela, 1964. Ouça Vou te abandonar, samba de 1930 de Heitor dos Prazeres.

Visões de James Hardy Vaux, no Rio de Janeiro em 1807:
In: Outras visões do Rio de Janeiro Colonial 1582-1808; antologia de textos, org. Jean Marcel Carvalho França, Rio de Janeiro, José Olympio: 2000.

Tendo mencionado as fontes públicas – em grande número nesta cidade – não posso deixar de descrevê-las.  Em razão de haver poucas nascentes no Rio de Janeiro, a água é coletada no pico de uma elevada montanha e conduzida à cidade por um majestoso aqueduto, que atravessa um vale de muitas milhas de distância.  Ao chegar à urbe a água é distribuída pelas fontes situadas nas ruas principais.  Essas fontes, todas muito bonitas, são construídas em pedra e contam com uma grande cisterna para armazenar a água.  Essa escoa daí por umas bicas de metal fundido, muito bem trabalhado, que têm a forma de bicos de ganso, de pato e de outras aves.


FRAGMENTO
Nina Rizzi, Viagem pitoresca pelos Brasis

Havia um cheiro forte por todo lado. Peixe e pobreza. Portos fedem em qualquer e todo lugar. Pelo menos há uma compensação de sentidos: a paisagem é belíssima. Principalmente pela manhã: o sol banhando o oceano, catalisando seus ares de divindade, abraçando a humanidade em sua imensidão; as ondas cintilam feito o ouro branco que tanta gente vem procurar pr'essas terras. E é sempre dos pobres a melhor paisagem. Mas aqui não há a compensação dos sentidos: a fome está ali. À toda hora, acordando-os ou levando-os aos leitos. E até quando dela se esquecem, é em comer que pensam.

As ruas apinhadas de brancos, pretos, mulatos e mestiços, misturados a marinheiros e negociantes e estrangeiros e escravos e escravas-de-ganho transitando apressados por todo lado fazem seu quinhão. Acha-se aqui todo tipo de quitandas e quinquilharias, faz os pregões europeus parecer bagatelas.

Em meio ao caos portuário se pode notar a figura do que, em algum tempo, devia ser uma mulher, mas que agora, depois de toda sorte de impropérios, se parece mais a uma sombra de criança a se mover lânguida por entre as gentes. Ia pra os lados do mosteiro. Lá tem um conhecido negro que salta de um lado pro outro sobre uma perna, auxiliado por uma muleta.

Conheceram-se quando ambos imploravam pela caridade de caixeiros-viajantes que recolhem de negociantes brasileiros e lusos uma pilha de moedas de cobre para darem aos pobres. Quando não conseguiam a esmola vinha o mote "Paciência, deus lhe favoreça". Giravam pela cidade todos os dias, mas o melhor de todos era o sábado, por isso, comumente se encontravam. Agora o negro trabalha como cozinheiro no mosteiro onde um risonho rapaz de dezesseis anos, um frade, serve um prato de comida aos pobres, em sua maioria brancos como ela, que levando colher e prato conseguem arroz e peixe.

Se lânguida se movia não era por dificuldade, como se lhe faltasse algum membro ou se fosse coberta de chagas como os outros da sua classe; tinha até bom condicionamento físico, que anos como artista e esmoleira lhe concederam. Era o descaso pra com o porvir; a despreocupação natural dos que nada têm, e nada quer, a salvaguardar. Ademais, gostava de caminhar assim, vagarosamente, se esgueirando de um lado ao outro, conforme o vento leste. Agrada-lhe a maresia forte salgando, rachando e esbranquiçando a pele, revoltando os cabelos e ardendo os olhos claros que se avermelham como quando puxa o fumo d'angola.

Quando assim, a caminhar, constrói os poemas que irá cantar na próxima festa ou n'alguma procissão pra santos. São esses os principais divertimentos populares e onde consegue alguns níqueis e então pode continuar a se mover pela extensão do império. Não participa ativamente dos festejos, prefere observar os protagonistas favoritos do drama nacional para depois, quando já estão bêbedos e mais receptivos deixam dos bolsos as moedas cair. Apresenta seus poemas cantando ou recitando. Geralmente os têm escrito, mas, conforme segue os festejos, prossegue em improviso.

Aprendeu a ler e escrever na antiga fazenda em que cresceu. A mãe a deixou naquela tão vasta propriedade quando ainda era um bebê e nunca mais apareceu. Sinhá, compadecida da criança, deixou que se instalasse com os negros na senzala. Assim, cresceu e foi educada juntamente com os filhos do senhor e dos escravos e se tornaram companheiros de folguedos. Essa familiaridade estabelecida forçosamente foi abolida logo na idade em que um dava ordens e vivia à vontade, enquanto os outros deviam trabalhar e obedecer.

Clara, que não era escrava nem sinhá, não tinha ligação qualquer com aquela terra e era insubordinável, partiu. Viveu toda a adolescência rodando de déu em déu. Agora, no mosteiro, saboreou um tanto de pasta de arroz, beijou o negro amigo e partiu.



MANGUE
Manuel Bandeira, Libertinagem, 1930; ouça o poema AQUI.

Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só

Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do
[que todas as Meritis da Baixada
Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições
[públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avul-
[sivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam
[com rancor
(Por isso
Entre os dois
Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras impe-
[riais)
Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcio-
[nário público casado com mulher feia
[e morri de tuberculose pulmonar
Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num pín-
[caro azulado.
Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carna-
[vais cariocas
Sambas da Tia Ciata
Cadê mais Tia Ciata
Tavez em Dona Clara meu branco
Ensaiando cheganças para o Natal
O menino Jesus - Quem sois tu?
O preto - Eu sou aquele preto principá do centro do
[cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?
O menino Jesus - Eu sou o fio da Virge Maria.
O preto - Entonces como é fio dessa senhora, obedeço.
O menino Jesus - Entonces cuma você obedece, reze
[aqui um terceto pr'esse exerço vê.
O Mangue era simplesinho

Mas as inundações dos solstícios de verão
Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Ca-
[rioca
Uiaras do Trapicheiro
Do Maracanã
Do Rio Joana
E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressada
[nos aterrados da Gamboa
Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
O Senador e o Visconde arranjaram capangas
Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém
[acreditava
E há partidas para o Mangue
Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
És mulher
És mulher e mais nada

OFERTA

Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Meriti meretriz
Mange enfim verdadeiramente Cidade Nova
Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
Linda como Juiz de Fora.

Arcos da Lapa em 1907, ano da eletrificação dos bondes, autoria desconhecida. 

Inaugura-se em nossa cidade o Bond a Tracção Eléctrica
Diário de Notícias, Rio de Janeiro, 08 e 09 de outubro de 1892

"Realiza-se hoje, á 1 hora da tarde, na Companhia Botafogo, linha do Flamengo, a inauguração do bond pela tracção electrica. O bond sahirá aquella hora do largo do Machado, seguindo para a praia do Flamengo, de onde virá até o largo da Carioca."

"Foi inaugurada hontem a tracção eléctrica nos bonds da Companhia Jardim Botânico tendo á inauguração assistido o sr. marechal vice-presidente da Republica, os membros dos ministérios, representantes da directoria d'aquella companhia, da imprensa e grande número de convidados. A experiência correu bem e amanhã daremos sobre ella circunstanciada notícia."


OS ARCOS DA LAPA
Publicado originalmente em Peregrinacultural's Weblog

Os Arcos da Lapa estão entre as primeiras grandes interferências arquitetônicas no Rio de Janeiro. É a obra de maiores dimensões e maior impacto do período colonial. Seu nome original — Aqueduto da Carioca — quase explica sua função. Essa construção de pedra e argamassa, em estilo romano, com dupla arcada, 42 arcos e óculos, edificada nos anos entre 1744 e 1750, trazia para o centro da cidade as águas do Rio da Carioca.

Mas por incrível que pareça, estes não foram os primeiros arcos construídos como parte do Aqueduto da Carioca. Os Arcos que conhecemos hoje, vieram para substituir os Arcos Velhos. Os primeiros arcos do Rio de Janeiro foram decididos por ordem régia de 1672. Mas só foram inaugurados em 1723, junto com o Chafariz da Carioca. Sua função como a dos Arcos que vemos hoje na cidade era trazer as águas do Rio da Carioca até o Largo da Carioca. Esta obra, bastante ambiciosa, só começou a tomar forma no governo de Ayres de Saldanha [e Albuquerque] (1719-26). Mas seu traçado repleto de curvas mostrou-se imprático, sem resistência, chegando às ruínas com grande rapidez.

Foi no governo de Gomes Freire de Andrade, último governador do Rio de Janeiro (1733 a 1763) — antes de ser criado o Vice-reinado –, que o Aqueduto da Carioca, que hoje conhecemos, foi construido e inaugurado.

No final do século XIX o sistema de adução das águas do Rio da Carioca tornou-se obsoleto e o aqueduto foi desativado. Eis que surge, então, em 1896, a oportunidade de transformar tamanha construção em rota para o bonde elétrico, servindo assim aos moradores do bairro de Santa Teresa.

O bairro possui a única linha urbana remanescente de bondes do Brasil. A Companhia Ferro-Carril Carioca, que introduziu o serviço de bondes no bairro na década de 1870, eletrificou as linhas em 1896. E aproveitou a construção colonial como via de acesso ao bairro. Por ter sido feito onde corria o aqueduto, os bondes de Santa Teresa trafegam usando uma bitola especial, bastante estreita, de 1,10m.


LUGARES DO RIO ANTIGO E SUA PROSA

FRAGMENTOS DE LIMA BARRETO

O largo de São Francisco estava silencioso e a estátua, no centro daquele pequeno jardim que desapareceu, parecia um simples enfeite. IN: O triste fim de Policarpo Quaresma

Mas um belo dia ia Quaresma pelo Largo do Paço, muito distraído a pensar nas maravilhas arquitetônicas do chafariz do Mestre Valentim, quando veio a encontrar-se com o mercador ambulante. IN: O triste fim de Policarpo Quaresma

Era hábito dos dois, todas as tardes, após o jantar, jogar uma partida de bilhar em cinquenta pontos, finda a qual iam em pequenos passos até o Largo da Carioca tomar cafés e licores, e, na mesa de botequim, trocando confidências, ficavam esperando a hora dos teatros, dos charutos, fumaças azuladas espiralavam preguiçosamente pelo ar. IN: Um especialista

Enfrentou o Teatro Municipal. Olhou-lhe as colunas, os dourados; achou-o bonito, bonito como uma mulher cheia de atavios. IN: Um e Outro

... como se poderia exigir de funcionários, fidalgos limitados na sua própria prosápia, uma maior força original sentimento diante dos novos quadros naturais que a luminosa Guanabara lhes dava, cercando as águas de mercúrio de suas harmoniosas enseadas? IN: Mágoa que rala

FRAGMENTOS DE MACHADO DE ASSIS

Tinha a botica da rua São José. Coversava-se ali muito, à tarde e à noite. Ia a gente com seu capote, e bengalão, alguns levavam lanterna. Quincas Borba

Foi ainda a pé durante largo tempo; passou o Saco dos Alferes, passou a Gamboa, parou diante do Cemitério dos Ingleses, com os seus velhos sepulcros trepados pelo morro e, afinal, chegou à Saúde. Viu ruas esguias, outras em ladeira, casas apinhadas ao longe e no alto dos morros, becos, muita casa antiga, algumas do tempo dos reis, comidas, gretadas, estripadas, o cais encardido e a vida lá dentro. IN: Quincas Borba

Este gosto de imitar as francesas da Rua do Ouvidor - dizia-me José Dias andando e comentando a queda - é evidentemente um erro. As nossas moças devem andar como sempre andaram, com seu vagar e paciência, e não este tique-tique afrancesado. IN: Dom Casmurro

Um dia reparou em Joaninha, que chegava aos dezenove anos e possuía um par de olhos lindos e sossegados, virgens de toda conversação masculina. Rangel conhecia-a desde criança, andara com ela no colo, no Passeio Público, ou nas noites de fogo na Lapa; como falar-lhe de amor? IN: O Diplomático

Que será feito de Mariana? Repetia agora, descendo a Rua da Assembléia. IN: Mariana

Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Conto de Escola

Para de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do Morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. IN: Conto de Escola

Lá vai ele agora, pela Rua de Bragança, Prainha e Saúde, até ao princípio da Gamboa, onde mora Genoveva. A casa é uma rotulazinha escura, portal rachado do sol, passando o Cemitério dos Ingleses; lá deve estar Genoveva, debruçada à janela, esperando por ele. IN: Noite de Almirante

FRAGMENTOS DE ALUÍSIO AZEVEDO

A casa de Luís Campos era na Rua Direita. Um desses casarões do tempo antigo, quadrados e sem gosto, cujo ar severo e recolhido está a dizer no seu silêncio os rigores do velho comércio português. IN: Casa de Pensão

O meu quarto de rapaz era bem alto; um mirante isolado por cima do terceiro andar de uma grande e sombria casa de pensão da Rua do Riachuelo... IN: Demônios

Sim, pensava ele; era chegar à estação das barcas de Niterói, tomar a primeira destas que aparecesse, fazer-se ao largo e, quando tivesse a certeza de que não o poderem salvar - zás! Um mergulho na baía! E pronto! IN: A Condessa Vésper

E, de tão preocupado com estes raciocínios, não notou que o cocheiro do seu carro acabava, sem afrouxar na carreira, de ser substituído pelo nosso intrépido Jorge; como também que o carro já não levava a direção de Laranjeiras, porque no Largo da Lapa, em vez de subir para o Catete, tomou pela Rua dos Arcos. IN: A Condessa Vésper

Palpitava de começão a endemoninhada zona do Rio de Janeiro, que vai desde o Largo do Paço até a nascente da Rua do Lavradio. IN: A Condessa Vésper

Por todo o ruidoso centro do prazer carioca se falava com febre da deslumbrante criatura, que atravessara a Rua do Ouvidor vestida de veludo carmesim bordado a ouro, faiscante de rica pedraria e jóias orientais. A Condessa Vésper

À porta de uma confeitaria da Rua do Ouvidor, João Romão, apurado num fato novo de casimira clara, esperava pela família do Miranda, que nesse dia andava em compras. IN: O Cortiço

Nina Rizzi, Aonde andam meus olhos a caminhar: Colecionando nuvens, Lagoa Rodrigo de Freitas/ RJ. Ouça Partido Alto com Cássia Eller e Aquele Abraço, com Gilberto Gil.

DOIS POEMAS
Ana Cristina César, A teus pés

Trilha sonora ao fundo: piano no bordel, vozes
barganhando uma informação difícil. Agora
silêncio; silêncio eletrônico, produzido no
sintetizador que antes construiu a ameaça das
asas batendo freneticamente.
Apuro técnico.
Os canais que só existem no mapa.
O aspecto moral da experiência.
Primeiro ato da imaginação.
Suborno no bordel.
Eu tenho uma idéia.
Eu não tenho a menor idéia.
Uma frase em cada linha. Um golpe de exercício.
Memórias de Copacabana. Santa Clara às três
da tarde.
Autobiografia. Não, biografia.
Mulher.
Papai Noel e os marcianos.
Billy the Kid versus Drácula.
Drácula versus Billy the Kid.
Muito sentimental.
Agora pouco sentimental.
Pensa no seu amor de hoje que sempre dura
menos que o seu amor de ontem.
Gertrude: estas são idéias bem comuns.
Apresenta a jazz-band.
N5o, toca blues com ela.
Esta é a minha vida.
Atravessa a ponte.
É sempre um pouco tarde.
Não presta atenção em mim.
Olha aqueles três barcos colados imóveis no meio
do grande rio.

NOITE CARIOCA

Diálogo de surdos, não: amistoso no frio. Atravanco
na contramão. Suspiros no contrafluxo. Te
apresento a mulher mais discreta do mundo: essa
que não tem nenhum segredo.


FRAGMENTO
João do Rio, A alma encantadora das ruas, 1908

O flâneur é ingênuo quase sempre. Pára diante dos rolos, é o eterno "convidado do sereno" de todos os bailes, quer saber a história dos boleiros, admira-se simplesmente, e conhecendo cada rua, cada beco, cada viela, sabendo-lhe um pedaço da história, como se sabe a história dos amigos (quase sempre mal), acaba com a vaga idéia de que todo o espetáculo da cidade foi feito especialmente para seu gozo próprio. [...] Quando o flâneur deduz, ei-lo a concluir uma lei magnífica por ser para seu uso exclusivo, ei-lo a psicologar, ei-lo a pintar os pensamentos, a fisionomia, a alma das ruas. E é então que haveis de pasmar da futilidade do mundo e da inconcebível futilidade dos pedestres da poesia de observação...

A CIDADE E OS LIVROS
Antonio Cícero, A cidade e os livros, 2002

para D. Vanna Piraccini

O Rio parecia inesgotável
àquele adolescente que era eu.
Sozinho entrar no ônibus Castelo,
saltar no fim da linha, andar sem medo
no centro da cidade proibida,
em meio à multidão que nem notava
que eu não lhe pertencia – e de repente,
anônimo entre anônimos, notar
eufórico que sim, que pertencia
a ela, e ela a mim –, entrar em becos,
travessas, avenidas, galerias,
cinemas, livrarias: Leonardo
Da Vinci Larga Rex Central Colombo
Marrecas Íris Meio-Dia Cosmos
Alfândega Cruzeiro Carioca
Marrocos Passos Civilização
Cavé Saara São José Rosário
Passeio Público Ouvidor Padrão
Vitória Lavradio Cinelândia:
lugares que antes eu nem conhecia
abriam-se em esquinas infinitas
de ruas doravante prolongáveis
por todas as cidades que existiam.
Eu só sentira algo semelhante
ao perceber que os livros dos adultos
também me interessavam: que em princípio
haviam sido escritos para mim
os livros todos. Hoje é diferente,
pois todas as cidades encolheram,
são previsíveis, dão claustrofobia
e até dariam tédio, se não fossem
os livros infinitos que contêm.

Ai de ti, Copacabana!
Rubem Braga, Ai de ti, Copacabana, 1968

1. AI DE TI, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas.

2. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite.

3. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia.

4. Sem Leme, quem te governará? Foste iníqua perante o oceano, e o oceano mandará sobre ti a multidão de suas ondas.

6. Grandes são teus edifícios de cimento, e eles se postam diante do mar qual alta muralha desafiando o mar; mas eles se abaterão.

6. E os escuros peixes nadarão nas tuas ruas e a vasa fétida das marés cobrirá tua face; e o setentrião lançará as ondas sobre ti num referver de espumas qual um bando de carneiros em pânico, até morder a aba de teus morros; e todas as muralhas ruirão.

7. E os polvos habitarão os teus porões e as negras jamantas as tuas lojas de decorações; e os meros se entocarão em tuas galerias, desde Menescal até Alaska.

8. Então quem especulará sobre o metro quadrado de teu terreno? Pois na verdade não haverá terreno algum.

9. Ai daqueles que dormem em leitos de pau-marfim nas câmaras refrigeradas, e desprezam o vento e o ar do Senhor, e não obedecem à lei do verão.

10. Ai daqueles que passam em seus cadilaques buzinando alto, pois não terão tanta pressa quando virem pela frente a hora da provação.

11. Tuas donzelas se estendem na areia e passam no corpo óleos odoríferos para tostar a tez, e teus mancebos fazem das lambretas instrumentos de concupiscência.

12. Uivai, mancebos, e clamai, mocinhas, e rebolai-vos na cinza, porque já se cumpriram vossos dias, e eu vos quebrantarei.

13. Ai de ti, Copacabana, porque os badejos e as garoupas estarão nos poços de teus elevadores, e os meninos do morro, quando for chegado o tempo das tainhas, jogarão tarrafas no Canal do Cantagalo; ou lançarão suas linhas dos altos do Babilônia.

14. E os pequenos peixes que habitam os aquários de vidro serão libertados para todo o número de suas gerações.

15. Por que rezais em vossos templos, fariseus de Copacabana, e levais flores para Iemanjá no meio da noite? Acaso eu não conheço a multidão de vossos pecados?

16. Antes de te perder eu agravarei s tua demência — ai de ti, Copacabana! Os gentios de teus morros descerão uivando sobre ti, e os canhões de teu próprio Forte se voltarão contra teu corpo, e troarão; mas a água salgada levará milênios para lavar os teus pecados de um só verão.

17. E tu, Oscar, filho de Ornstein, ouve a minha ordem: reserva para Iemanjá os mais espaçosos aposentos de teu palácio, porque ali, entre algas, ela habitará.

18. E no Petit Club os siris comerão cabeças de homens fritas na casca; e Sacha, o homem-rã, tocará piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, cujos nomes passaram muitos anos nas colunas dos cronistas, no tempo em que havia colunas e havia cronistas.

19. Pois grande foi a tua vaidade, Copacabana, e fundas foram as tuas mazelas; já se incendiou o Vogue, e não viste o sinal, e já mandei tragar as areias do Leme e ainda não vês o sinal. Pois o fogo e a água te consumirão.

20. A rapina de teus mercadores e a libação de teus perdidos; e a ostentação da hetaira do Posto Cinco, em cujos diamantes se coagularam as lágrimas de mil meninas miseráveis — tudo passará.

21. Assim qual escuro alfanje a nadadeira dos imensos cações passará ao lado de tuas antenas de televisão; porém muitos peixes morrerão por se banharem no uísque falsificado de teus bares.

22. Pinta-te qual mulher pública e coloca todas as tuas jóias, e aviva o verniz de tuas unhas e canta a tua última canção pecaminosa, pois em verdade é tarde para a prece; e que estremeça o teu corpo fino e cheio de máculas, desde o Edifício Olinda até a sede dos Marimbás porque eis que sobre ele vai a minha fúria, e o destruirá. Canta a tua última canção, Copacabana!

Rio, janeiro, 1958


FRAGMENTO
Vinícius de Moraes, Orfeu da Conceição - tragédia carioca, 1954

Orfeu: - (sorrindo) Namorada vai bem depressa. Deus te leve. Aqui ficam meus restos a esperar por ti que dás vida!

Mulher mais adorada! Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços! Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que se passa
É mais por que te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? Cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, - que é que eu sei! Essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confudir o espírito
De um homem – nada disso tem importância
Quando tu chegas com esta charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! E me dizes essas coisas
Que me dão essa força, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreesível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos. Tu
És a horam és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! Criatura! Quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo o violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres – que ele, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braçoes sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que estarei contigo!

[...]

CANÇÃO DA PARADA DO LUCAS
Manuel Bandeira, clique AQUI para ouvir.

Parada do Lucas
- O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Minha alma incendida
Pediria à Noite
Dois seios intactos.

Parada do Lucas
- O trem não parou.

Ah, se o trem parasse
Eu iria aos mangues
Dormir na escureza
Das águas defuntas.

Parada do Lucas
- O trem não parou.

Nada aconteceu
Senão a lembrança
Do crime espantoso
Que o tempo engoliu.

fósforo

Cláudia Roquette-Pinto, Zona de sombra

ela segue dormindo. na borda do lençol o que a acalenta não são flores - senão aquelas mínimas rosas, pontas buliçosas de falanges a afiar seus instrumentos. sobre as cinzas do peito vão as pegadas, fósforo expondo ao ar noturno seu poder de ignição. o objetivo: o ermo pavilhão (esquerdo) do ouvido. onde então dispersariam, indo pesar alhures. nas pálpebras lilases, nas pétalas pisadas dos olhos, onde outro grupo de homúnculos labora. com minúcia, com agulhas de prata eles picam a superfície da pele pálida e baça e tão logo abertas às intempéries da luz. a cada golpe da agulha ela sabe , a massa corrente dos sonhos, a água caiada quase a ponto de talho se enruga e ralenta, e onde ali havia superfície fluida, ininterrupta, o que se coagula?

semi-cerrada na madrugada avulsa ela espera que alguma mão (a sua?) trêmula recolha toda a alva matéria e a explique.

copacabana 
líria porto, tanto mar

um requebro um meneio
um balanço de quadris

essa calçada morena
tem curvatura de miss

Nina Rizzi, Aonde andam meus olhos a caminhar; fotografia sobre arte no Parque das Ruínas, Santa Teresa/ RJ. 

DOIS NOMES PARA A NOVÍSSIMA POESIA CARIOCA


de janeiro
Roberta Fernandes, Poesia: Falsidade Ideológica

da minha janela eu vejo
o cristo entre prédios.
amanheceu tímido, dormindo em nuvens.
contaram que a noite foi dura e mágica.
mesmo o sol que vê de cima não ousa acordá-lo.

o verde contorna como moldura
mas não prende, não toca.

um cristo assim merece
soneca até no meio da tarde.
bonito mesmo quando não aparece.
quando faz mistério
se esconde.

500 crianças berrando e tentando o seu alcance.
mas o topo é alto.
só alcança quem flutua.
no caminho, quem pensa cai.
só quem não quer, assim direto, chega.

o sol bate nos prédios
nem as nuvens ele perturba.
aposto que lá tem água de coco.
sabe? no topo.

aqui embaixo, as mães das crianças berram
nomes pequenos, alguns estranhos
repreendem por medo dos pés que começam
a sair do chão.
que começam a alcançá-lo.

nesse berro todos caem
feito fruta seca no asfalto.

ah se essas mães soubessem...
não ousariam perturba-lo.

POEMAS DE RAUL MACEDO

RIOS DE HOJE

Cidade, símbolo esvaindo
em algum morto na guerra do Iraque.
Sua beleza é artifício, e os corpos
estão distantes, espumados nas baías.
Os satélites apontam seus trajetos,
e os poetas, na orla, estatuados.
Cravo em suas pedras de signos,
este poema a nenhum fone de ouvido.


NOTURNO DA LAPA
                                a Sifredo Macedo

Deixem-me só pelos Arcos
da Lapa, onde bonde não passa
pelos seus ombros, pelo silêncio
erguido ao som passageiro,

de um samba ardendo na Lapa,
na noite ambulante, na sede
vendida à boca rasteira,
de um gole que assalta a cidade.

E se vozes começam a sair
dos casarões, botecos, bordéis,
bêbados, sóbrios, perduram 

na sombra dessa outra cidade,
em que o bonde atravessa os escombros
da Lapa, onde o tempo não passa.


AVENIDA ORFEU

Era uma boca impossível;
uma boca desdentada,
boca suja escancarada
para os dentes da cidade.

Ela cantava aos autos,
às vitrines consumadas,
aos letreiros escarrando
seus gorjeios de néon.

E os prédios, furibundos,
cerravam suas janelas,
como um acorde, à espera
do silêncio, como um tiro.

Era uma boca impossível,
cantando na madrugada.

FAVELAS


Pipa vento laje
na terra vermelha,
risca paralela
pingando no mar.

Formas de poeira,
sagração do morro,
arsenal de zinco
na terra arrastada.

Paira uma aura
de rastos matizados,
na terra recende,
entoando rios

- riscos risos ritos -
ribeira que avança.

SUBÚRBIOS

Labirintos forjados na cinza,
no suor das casas, nas vendas,
nos terrenos baldios, botecos,
nas igrejas, becos, ruelas.
Há uma confluência de aço
nestes corpos seminus
leves leves leves
nas pedras, torneando os muros.

A Kombi, em velocidade,
contorna uma linha de trem,
e o motorista rasga
a calçada, ribombando
o silêncio... e o calor
ferve ferve ferve

PRAIA
                 "La chair est triste, hélas! et j ' ai lu tous le livres"

Na praia
eu vejo corpos
flancos gritos
cachorros
 vejo o mar também em surdina
- contraponto dos afogados -
e bundas passando melódicas
as aves episódicas

e aviões também cortam nuvens
as nuvens... e as bundas

(este poema é de 2009
levava ainda cadernos à praia

hoje só levo minha carne
quando levo alguma coisa)
e o vento...



DICAS

- Fotografias do suíço George Leuzinger do Segundo Império, Blogue Diário do Rio de Janeiro;

- Curiosidades da História do transporte urbano no Brasil, uma história que se funde com a do Rio de Janeiro, AutoClassic;

Histórias do Rio Antigo, por Paulo Pacini; JB Online;

- Ouça também Rio Antigo, composição de 1979 de Chico Anysio e Nonato Buzar, na voz de Alcione.

- E como toda edição é incompleta, deixe também sua visão do Rio na caixa de comentários!
*

4 comentários:

Assis Freitas disse...

A parte do Rio que eu conheço é a de uma mulher que dorme comigo,

cheiro

Mirze Albuquerque disse...

Lindo ver meu Rio aqui em poesias e arte. Em Lírias e Nina.

Amo TUDUS!

Beijo

Mirze

Anônimo disse...

Nina:

"Os suburbios do Rio de Janeiro sao a mais curiosa cousa em materia de edificacoes da cidade [...]

Desde anos que ele a habitava e gostava da casa que ficava trepada sobre uma colina, olhando a janela do seu quarto para uma ampla extens~ao edificada que ia da Piedade a Todos os Santos. Vistos assim, do alto, os sub'urbios tem a sua graca. As casa pequeninas, pintadas de azul, branco, de oca, engastadas nas comas verde-negras das mangueiras, tendo de permeio, aqui e ali, um coqueiro ou uma palmeira, alta e soberba, fazem a vista boa e a falta de percep'c~ao do desenho das ruas poe no panorama um sabor de confusao democratica, de solidariedade perfeita entre as gentes que as habitam; e o trem minusculo, rapido, atravessa tudo aquilo, dobrando a esquerda, inclinando-se para a direita, muito flexivel nas suas grandes vertebras de carros, como uma cobra entre pedroucos"

JOAO ANTONIO. Calvario e porres do pingente Afonso Henriques de Lima Barreto.

me fez pensar em Florian'opolis

Giulianoquase

Marcelo Novaes disse...

Nina,


O Rio que me habita é suburbano e, paradoxalmente, um apêndice de Niterói.


Belíssimo painel sobre tantos outros e diversos Rios, que não pude abarcar.



Um beijo, querida.