"NO Brasil, costuma dizer que para o escravo são necessários três PPP, a saber, pau, pão e pano. E, posto que comem mal, principiando pelo castigo que é o pau, contudo, prouvera a Deus que tão abundante fosse o comer e o vestir como muitas vezes é o castigo, dado por qualquer causa pouco provada ou levantada; e com instrumentos de muito rigor, ainda quando os crimes são certos, de que se não usa nem com os brutos animais [...]" (Pe. Antonil, in: Cultura e opulência do Brasil, de 1711)
"NECESSARIAMENTE deve haver escravos no Brasil, e por nenhum modo devem ser dispensados: se alguém sentir-se nisto agravado, será um escrúpulo inútil [...] é muito preciso que todos os meios apropriados se empreguem no respectivo tráfico na Costa da África." (Relatório de Maurício de Nassau à Holanda, in: Luíz Felipe Alencastro, O trato dos viventes: formação do Brasil no Atlântico Sul. p. 210)

A imagem é a aquarela Família de fazendeiros, do pintor alemão Johann Moritz Rugendas (1802-1858). Esta pintura foi realizada a partir das observações que Rugendas fez das pessoas e lugares que conheceu em suas viagens ao Brasil (1822-25 e 1845-46). (clique na imagem pra seguir negando grilhões.)
Na pintura vemos um jovem anunciando a chegada de um visitante - talvez um parente, um conhecido, alguém que veio a negócios ou apenas um forasteiro em busca de informações ou abrigo. Reparem nos gestos do jovem: com o chapéu na mão esquerda ele se dirige À mulher mais velha da família senhorial e aponta para a porta, onde está o inesperado visitante.
"Rugendas [...] buscava transmitir uma pretensa amenidade do sistema escravocrata no que tange ao trabalho na 'plantação' [...]. O clima é teatral e o enredo é romantizado pelos detalhes que compõem o cenário e pela pose dos personagens. O artista humaniza a escravidão ao mesmo tempo que destaca as formas físicas e a sensualidade do negro [...]" (Boris Kossoy e Maria Luiza Tucci Carneiro, in: O Olhar Europeu: O Negro na Iconografia Brasileira do Século XIX, ed. USP, 2002. p. 73)
Não obstante, nesse quadro "doméstico", a cena é reveladora da posição social das personagens retratadas.
Os brancos adultos estão, em sua maioria, sentados próximos à janela e se divertem ao som do instrumento tocado pelo dono da casa (esta informação foi obtida da legenda de Herculano Gomes Mathias, contida no livro Rugendas e a viagem pitoresca através do Brasil, RJ, Ediouro, sd.). O jovem negro é escravo, assim como as mulheres negras que estão no chão, onde entretêm as crianças de seus senhores. Uma das mulheres amamenta uma criança branca. Outra segura o papagaio em uma das mãos e o exibe para o menino de quem está cuidando. A cor da pele funciona como elemento de segregação: enquanto os brancos se dedicam ao lazer ou a outros interesses, os negros cumprem obrigações: amamentar, cuidar das crianças, informar a chegada de uma visita.
A pobreza do mobiliário e o tipo de construção da casa sugerem a falta de conforto e uma pro]vivacidade limitada. Os únicos móveis são bancos ou cadeiras. As pessoas estão acomodadas em bancos, numa rede e numa esteira. Uma pele de onça é usada como tapete. O teto não tem forro. Percebe-se também o uso de um jarro e uma cuia para água e alimento.
A presença do catolicismo é evidente nos poucos objetos que decoram o ambiente: um quadro, em que se vê a imagem de uma santa, e um crucifixo.
*
A PERDA DO NOME
Ao ser batizado, o escravo perdia seu nome original, que era trocado por um nome português. A cerimônia durava poucos minutos e se realizava geralmente na hora do embarque. Para certos povos africanos isso era muito doloroso, pois, em alguns lugares da África, o nome dado a uma pessoa tem um significado especial.
Ao contrário do que acontecia com o nome africano, o nome português, dado no batismo, devia servir para apagar da memória do africano todo o seu passado: sua família, seus amigos, sua língua e a região de onde tinha vindo. No Brasil, podia ser vendido, alugado, emprestado, leiloado para saldar dívidas do senhor. Não tinha direito nem mesmo ao próprio nome.
*
argumento pra luanda, a carolina
nina rizzi
i-
era treze de maio.
era treze de maio dum doismiliqualquercoisa.
nuvens cinzas, carregadas, ajudavam a molhar os rostos.
um rosto negro.
vários rostos tantos negros, escravos.
escravos da pobreza.
ii-
corpos adormecidos em caçambas
as mesmas caçambas-mesas
- credo! que gente nojenta! na minha terra não é assim. somos civilizados.
- e aonde é sua terra, minha branca? terra de alencar ou não, tudo é preto de fome.
- esse discurso enegrece minha imagem de boa-patroa. minha empregada é preta e me adora. é praticamente da família.
- ah, e ela usa sapatos?
- quando compro novos, inclusive os sapatos da minha filha, do meu marido, até mesmo os meus italianos, passam pra ela.
- ah, sapatos de embranquecer sua imagem...
iii-
eu chorei uma neguinha.
escrevi uma menina.
seu corpo era fraco, fraco.
era fome, ela disse. eu via
era pedra, visse.
um corpo que me feria.
iv-
carolina é viciada em fumo desde que
o tejo encontrou o atlântico
e ela passou a valer uns tabacos.
carolina tem letras espalhadas pelos lábios,
o lombo tatuado as liberdades acorrentadas.
carolina tem um olho buendía
assim, séculos de servidão.
ela tem outro olho.
olho de me fazer doer
a consciência quase-branca, quase-burguesa.
carolina é negra, é favelada,
é poesia de não se reconhecer
é mais uma mulher. negra.
v-
"estamos fadados a ser livres"
gente como a gente, que não se reconhece propriedade
acha brechas, frestas, foge.
busca um território feito banto:
um samba, um maracatu, um frevo, terreiros.
ali nos recriamos, forjando quilombos.
*
"AOS remanescentes das comunidades dos quilombos que estejam ocupando suas terras é reconhecida a propriedade definitiva, devendo os Estados emitir-lhes os títulos respectivos." (Constituição Brasileira de 1988, Artigo 68)
Apesar da existência da lei, ela é quase impraticável, até agora* foram concedidos poucos títulos de propriedade. Vejam:
- apenas os estados do Acre e de Roraima não têm áreas identificadas como remanescentes de quilombos;
- total de áreas identificadas como quilombolas: 724;
- número de habitantes: 80.998;
- áreas reconhecidas: 31;
- comunidades que já receberam o título definitivo da terra: 5.
* dados obtidos da Folha Imagem, 2002.
*
a revolução,
saída de reservas de confinamento
é a descida do quilombo
pras estruturas quo.
[Postagem dedicada ao meu avô, Joaquim Januário, nome de batismo português, mais um sobrevivente do escravismo. Con-traiu núpcias com minha avó, Idalina Rizzi, calabresa da peste e olha no que deu...]