sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

REPETECO: Por que está viva a poesia.

pode me chamar de meio-fio; mundo temos dois: o de vocês e o nosso.
- Valter di Láscio

Valter di Láscio no Terminal do Papicu, Fortaleza/ CE. Siga com a poesia de Valter di Láscio, um vídeo marginal; mas não deixe de ver também a entrevista de Geraldo Vandré à Globo News, que me deu a ideia desta edição.

voo para o pássaro vermelho, uma tentativa crônica
nina rizzi

poesia todo dia,
que mais nos desejaria?
de piada,
de miada,
de rugida,
mas que sejam
poéticos
todos nossos
dias.

tinha uma pasta. pasta reutilizada e papéis borrados re-líveis. só. que não precisa nada mais. é um tostão pra cachaça e pão. circo que fazem de nós. palhaços, malabaristas, contorcionistas, domadores de feras. suicidas.

vai-te embora,
vai-te embora,
que espaços elitizados
não são pra pé-rapados

ouviam todos dos empregadinhos dos aparelhos repressores do estado. os homenzinhos que em casa são oprimidos por suas gordas e sádicas esposas e que, agora, simulavam um tosco riso de satisfação no canto dos lábios. por convidar ase retirar o semeador de poesia do centro de arte e cultura. do centro de arte e cultura expulso por semear poesia.

: deixa estar
eles pensam que fazemos
arte enclausurados
mas estamos
soltas mentes
nem tentem
me calar
se expulso
volto
se volto
declaro guerra
aos hipócritas
minhas mãos suadas
denunciam
minha indignação
as mãos
que se não
usadas
dão vazão
a toda
arte-corpo-frêmito.

ele nos ofereceu maiores cordas pra juntar agrilhoados. jogou papéis ao vento. no circo. pra multidão se passar em re-vista.
***

era carnaval. era o nordeste e era o frio. era jazz, blues e borboletras. um barbudo que foi um dia historiador e, herói, cansou de academi-sismos. podia ter sido um meu mestre. de repente, a gente prende. antes, esperto, preferiu viver. e se deixamos de nos ver na franca do imperador, não na guaramiranga.

sinuca. (odi)lombra. cachaça.
meu beijo nos lacrimejantes lispectorianos-olhos.
chuva. chuva. chuva-dadá
de poesia picada
: e nenhum sorriso por escambo.
biscoito. gomas. água
pra a peque-nini. e o
enfadonho redundante
reggae. fichas
e cachaça pra
mamãe. e sua
parte
no circo
deixo em teu
caderno:

PEDRAS E BLINDADOS
Valter di Láscio

Pedi a Nina que se acalmasse
Se ocultar é a lei
Não podemos expor nossas cabeças à
baioneta do inimigo
Eles desejam nos desarmar e
nos aniquilar
Andamos feito gatos em guetos
esgueirando pelos cantos
Ainda sentimos nas vestes
o cheiro de gás
Na mochila, um arsenal
e um livro de Maiakóvski
Na cidade vazia, uma população escondida
e amedrontada
Ao chegarmos trancamos a porta
Nossa casa dava-nos uma falsa
sensação de segurança
Que no fundo sabíamos não ter mais
Foi quando nos despimos para o banho
que notei em tuas costas
a marca da covardia da truculenta
repressão
De manhã acordei com Nina chorando
Eu sabia que não era dor
Era raiva
Ódio
Todo dia aqui e acolá
Surgindo mães chorando entes
queridos e desaparecidos
A era da pedra
Pedra contra blindado
Tropas de elite versus jovens idealistas
Cães famintos, latindo e legislando
em causa própria
Enquanto seus subalternos
jogam o lixo nos rios ou
em alto mar...
ou então sangram o asfasto.
*


a gente não transou no papicu aquele dia.
todos nos olhavam. perplexos

você só queria uma fotografia.
eu, poesia.


[amores rizzíveis, nina rizzi]
*

SOBRE O CIMENTO FRIO
Pedro Rocha, Grupo T.R.E.M.A., Overmundo

Chegou no terminal a uma hora da madruga, talvez menos. O corpo um pouco inclinado para frente, bigode amarelo, rosto surrado cor cinzas. Eu estava no terminal para mais um episódio da série Cadeiras com Rodas. Fiquei olhando. Sentou em um dos bancos de cimento do terminal, fechou os olhos e começou a cambalear levemente em uma pequena elipse. Sabia quem era. Como não? Valter di Lascio. Poeta. Como não? Freqüentador do Centro de Humanidades da UFC, da Uece, dos bares do bairro do Benfica, da Praia de Iracema... Vendedor chato de livretos de poesia sempre a lhe abordar em momentos inconvenientes.

BIS
COITO
COM
CHAMPAGNE
POESIAS DE VALTER Di LASCIO.

"Como não!? Aquele paulista que vive no Dragão do Mar a vender aquelas xerox. Algo como... Um poeta marginal! Isso.Um poeta marginal a andar pelas ruas de Fortaleza em pleno século XXI".

De 48 anos. O universitário que foi pra Bahia, visitar uma figura, acabou ficando 15 dias na cada dela. Depois mais 15, foi bater em Ribeirão Preto. O curso de História na UNESP correndo... Mais quinze dias não vão fazer diferença. Minas... Há nove anos em Fortaleza. Sabe-se lá como chegou aqui... Passando agora, uns tempos, em Jericoacoara, reduto de turistas do mundo inteiro.

Dizem... que um dos homens mais assaltados em Fortaleza. Coisa de 50 vezes. Levam papéis, alguns livretos, desodorante, escova de dente, algumas poesias recém escritas. Morador do Terminal de ônibus do Papicu há algum tempo. Lugar seguro em Fortaleza. Por ali, no terminal, chegam alguns, quando se finda um dia e insiste em começar outro.

Fuma feito uma caipora. O bigode não nega. Bebe socialmente diariamente, tentando dar conta das demandas da street high society fortalezense. Dois meses sem beber por motivos de ordem médica.

Valter di Lascio. Como não? Tinha que entrevistá-lo.

PR: Como que você vê sua condição de poeta marginal? Acredita nesse estereótipo?

VL: Quem colocou esse estereótipo não fui eu. "Ah, porque você dorme no terminal". Durmo no terminal. Durmo no terminal porque eu não tenho grana porra, só por isso. Se tivesse grana, claro que eu não ia tá dormindo no terminal. Quero escrever, não tenho condições de escrever legal. Quero trabalhar não posso. Tô querendo estudar não posso. Como que eu vou estudar no terminal? Não tem condições. Tô querendo trabalhar num projeto que são contos, fiz alguns contos e tal, mas pô, não tem condições, porra. Eu mal durmo. Eu cochilo, não durmo... Isso é uma conseqüência da própria cultura oficial porra. Se os caras não têm o hábito de ler, como toda hora eu tô escutando: "não gosto de ler", "vixe, tem que ler?". Quer dizer, se as pessoas não gostam de ler, não vendo. Se não vendo, não tenho como me manter. Tenho que tá na rua. Que nem agora, quero ir embora pra Jeri. O que acontece? Passo a noite, o que eu consigo de grana? Consigo de grana pra chegar no terminal comer, comprar cigarro, o básico. De manhã faço a merenda, no terminal, lógico, óbvio e vou pra rua. Vou pra Universidade, fazer cópia... Enfim, vou fazer o que eu tenho pra fazer. O que me sobra no dia seguinte é a grana pra refazer o material, às vezes não dá nem para almoçar.

PR: A tua poesia é de subsistência?

VL: Total, total, total... Por mim eu não venderia dessa forma que eu vendo. Por mim eu venderia o produto final, ele completo, o livro. O livro com 130 poemas, ilustrado, do jeito que foi feito.

PR: Como tu produz esses livretos?

VL: É feito num computador a matriz. Eu pago pra fazer, amigo meu faz, o que tiver mais fácil no momento. Se tiver dinheiro eu mando fazer, porque é aquela coisa às vezes o cara pega dinheiro pra fazer, na maior boa intenção. Porém, no entanto, o cara estuda, o cara trabalha, o cara tem a vida dele. Eu não posso ficar no pé dele cobrando: "Porra, você já fez? Quando você me entrega?". Pô, o cara tá fazendo de graça, na maior boa vontade, e eu ainda vou ficar pegando no pé? Não é legal. Tenho que pagar. Eu fui fazer agora o cara me cobrou 1,50 por página. Depois que eu mandei fazer o cara chegou pra mim: "Porra, por que tu não falou comigo?". Como é que eu vou saber? Eu não vou ficar perguntando de um por um, "você pode fazer?", "você pode fazer?". Então é feita a matriz no computador, depois tirado xerox. Custeado por mim.

PR: Quais os pontos que tu mais vende?

VL: Não tem os pontos que eu mais vendo, são os únicos que eu vendo. É Universidade, Ponte Metálica e Dragão do Mar.

PR: Existe alguma coibição no Dragão do Mar?

VL: Existe. Eu não tenho autorização. Agora que a segurança tá pegando no pé. Cheguei de Jeri agora, preciso vender, eles não tão deixando. Só pode vender na praça, se não for na praça eles vêm pegar no pé. Só nos bancos, ali eu posso vender. Debaixo do planetário eu não posso, próximo do cinema eu não posso, debaixo da passarela eu não posso. São dependências do Dragão do Mar. Onde é o limite, onde termina o Dragão do Mar e onde começa? Não sei, aliás nem eles [seguranças] sabem, é ordem superior, é ordem do chefe... Eles não questionam nada.

VL: O que você acha desse tipo de proibição em um ponto cultural?

PR: Totalmente imbecil. Se eu não posso vender um livro num centro que se diz de arte e cultura, porque eu não tenho a suposta autorização, eu vou vender aonde? Porra, no show do Calcinha Preta? Ou no Castelão em dia de jogo Ceará e Fortaleza? Não tem cabimento porra, invés de ser proibido devia ser incentivado. Quando eu converso isso ai com turista, o cara fica dizendo: "Porra, não pode", se espantam. Por que que não pode? Vai perguntar pra ele porra. Nêgo vende o cacete a quatro lá, mas tem autorização. Não sei que porra de autorização é essa. Pra botar um crachazinho no peito? Não tem cabimento porra...

PR: A tua relação com Fortaleza é opressora?

VL: Ah sim, me incomoda. Eu não agüento mais viver em cidade grande, isso também em outras cidades grandes. Eu não consigo mais viver nessa neura. Nos meus textos, tu vai ver que tem toda uma temática urbana. Eu não consigo me imaginar escrevendo cordel, seria uma violência, seria eu massacrar o cordel. Então as informações que eu trago são outras, são influências urbanas.

PR: Já tentou desistir da poesia?

VL: Não, não pensei.

PR: Por quê?

VL: Você já pensou em parar de respirar?

PR: Não.

VL: Então, é a mesma coisa. É uma coisa vital. Não dá mais, chegou num ponto que não tem mais volta, agora é só continuar, onde vai dar não sei. Pelo menos não vai ficar que nem a Ponte Metálica. Espero que não, porque a Ponte Metálica é uma ponte surrealista, é uma ponte que não vai pra lugar nenhum. E não é uma ponte na realidade, porque toda ponte implica que você saia de um ponto A para um ponto B. Tem início e fim. Tá ultrapassando um obstáculo, né? Essa ponte não, ela só começa, não termina. Pra mim é um negócio surreal isso aí. Então eu não quero que meu trabalho fique assim, também interrompido, então eu vou continuando... Essa ponte minha vai continuando, aonde vai chegar não sei e não tô preocupado. O que eu quero, que fique bem claro, é paz e sossego, me deixar trabalhar sossegado, só isso porra.

PR: Você tem compromisso com que valores?

VL: É uma coisa que eu venho me questionando há muito tempo. O que realmente é importante pra você?

PR: Pra mim?

VL: Pra você que eu digo pra todos. Pra você também. Pra você é importante terminar o curso de jornalismo, ter uma profissão... Não sei se você quer carro, casa na praia, cacete a quatro. O que eu quero? Não quero carro, não quero porra nenhuma, o que eu quero é trabalhar sossegado, ter um canto pra poder trabalhar, pra poder receber meus amigos, viver um pouco dignamente. Não passar fome como eu passo, não passar sede como eu passo e isso não quer dizer luxo entendeu, continuo com minha havaiana no pé. Não quero 10 calças como eu tinha antigamente, não quero uma porrada de livros, o livro pra mim é outro lance que eu mudei meu relacionamento com ele. O que que adianta está com uma estante com uma porrada de livros apodrecendo lá se eu já li. Então, se você me dá um livro, como já aconteceu e tem acontecido, então... se você tá me dando, não espere que ele fique na minha mão. Não vai ficar. Já li? Já absorvi? Eu passo pra frente, porque eu prefiro que ele passe pra frente do que fique parado na estante. Quantas pessoas estão sendo privadas de ler enquanto ele tá privado na estante? Pessoas que não têm condições de comprar o livro. Isso é com tudo. Eu tô cada vez mais querendo o mínimo.
***

Pedi para que recitasse um poema (disponível AQUI). Insinuou um cachê para a entrevista ainda com o gravador ligado. Brincou. Queria receber em Euro. De alguma forma tinha que ajudá-lo. De alguma forma ia ter ganhos com a publicação do texto também. Dei 5 reais. Depois comprei mais dois livretos, por um real cada.

Encontrei Valter mais uma vez no terminal. Ainda tentava interar o dinheiro da passagem para Jeri. Reclamava que lhe faltava o que ler. Entreguei-lhe um livro que tinha prometido. Qualquer livro. Escolhi uma edição de bolso de "Numa fria" de Bukowski, sem atentar para a ironia do autor escolhido.

Depois, cruzei com ele mais uma vez nos arredores do Centro de Humanidades da UFC. Três vezes em pouco mais de uma semana. Como andava... Não o vi mais. Foi pra Jeri.
*

5 POEMAS DE VALTER DI LÁSCIO

CANIBALISTICAMENTO CORRETO

Hoje estou
Com a fome dos canibais
Devorar os bispos e os cardeais

PEQUENA HISTÓRIA DO BECO E DA AVENIDA

Como poderíamos dar certo?
Tu és avenida.
Eu, o beco
Tu tens os olhos de néon,
Os meu, um emaranhado
uma gambiarra

Tua pele lisa e linda,
Negro asfalto que brilha
Eu, de pele manchada e esburacada
Tu de nome pomposo:
Angélica, Paulista, Consolação...
Eu, beco da Traição, da Mãe Chica e o
Escambau

Recebes presidentes, ilustres e patrões
Eu, bichas, putas e ladrões
Tu tens shoppings de quarteirão
Já eu, bodegas de montão
Tu exibes a beleza que fascina
Eu, a pobreza que incrimina

Ocultas na verdadeira face
Vil, mesquinha e hipócrita
Tudo que eu condeno
Faço da pobreza meu sangue
Da feia face, minha bela bandeira
E dos miseráveis, meu exército

Enquanto tu és previsível
Eu tenho em minhas vielas e esquinas
a surpresa

O beijo inesperado
De um travesti com um socialite
Na ladeira, um encontro de um cafetão
Com uma de suas damas que vem nos abusar

Temos ainda à beira de um casebre
A luz de um amor sincero
E no resplandecer do dia a beleza de duas
fantasias
Jogadas sobre a janela de um barraco
qualquer

Quem diria, não são fantasias
São Pierrot e Colombina.

SANGRANDO

Poeta da rua, que tens a lua
Como amante
O sol como cúmplica
As estrelas como guia

Poeta das ruas, que faz da estrada
Teu leito
Dos amores teus sonhos
Da poesia a razão do teu
Viver

És o fio da faca, que corta
E faz sangrar

VIAGEM DERRADEIRA

Os anjos hoje anunciaram a minha partida
E tu meu irmão de Meiota em punho caberá
................................. reunir nossos guerreiros
Em breve pegarei a estrada
................................. levando muitas saudades
E vocês, irmãos de sangue e som, cuja mãe
.................................. deu-lhes o mesmo ventre
Que ao me ver partir batam forte o tambor
e distorçam a guitarra
Toquem fogo no meu nome !!!
Reconheçam-me pelo cheiro,
...................pela ousadia e rebeldia
"- Todo louco te de viver pouco,
...........mas intensamente, o suficiente."
Quero declarar aqui, todo meu amor,
.................meu rancor, meu furor
Quero ver todas as veias
................saltarem de meu corpo
Em meu vaso sanguíneo quero flores
.................diversas e todas as ervas

O NOVO LIBERTA-SE

De que adianta a vida
....se não houverem riscos?
De que valeria a faca
se não cortássemos os artifícios?
De que adiantam as verdades empoeiradas?
Um palavrão preso na garganta
Um fato que poderia ser
mas ficou preso nas artimanhas
dos velhos grilhões
Com agilidade felina, o novo liberta-se
.jogando-se da janela do sanatório.
*

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Casamento de Jayme Ovalle: da esquerda para a direita, Murilo Mendes, Anibal Machado, Ovalle, Manuel Bandeira e Augusto Frederico Schmidt.

Poema só para Jayme Ovalle
Manuel Bandeira

Quando hoje acordei, ainda fazia escuro
(Embora a manhã já estivesse avançada).
Chovia.
Chovia uma triste chuva de resignação
Como contraste e consolo ao calor tempestuoso da noite.
Então me levantei,
Bebi o café que eu mesmo preparei,
Depois me deitei novamente, acendi um cigarro e fiquei pensando…
- Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei.
*

FRAGMENTO
Fernando Sabino, Gente, escritos entre 1973 e 1974 para o Jornal do Brasil.

Um dia lhe [para Jayme Ovalle] mostrei qualquer coisa que havia escrito, e ele me chamou a atenção para um trecho que, na sua opinião, deveria ser cortado:

- Você colaborou. Um escritor de verdade não colabora.

E como eu protestasse, defendendo o que havia escrito:

- Você está errado. Quer que eu chore, para provar?

Tirou o monóculo e começou a chorar, um choro de criança, lágrimas grossas escorrendo dos olhos claros e tombando no prato. Estávamos num restaurante e os outros fregueses olhavam estupefatos, aquele senhor de cabelos grisalhos em pranto diante de mim. Veio o garçom, veio o próprio gerente para saber o que havia, e ele sempre a chorar, gaguejando entre soluços:

- Está convencido agora? Tenho ou não tenho razão?

Das histórias de Jaime Ovalle, fico com a impressão de que ele é aquele amigo de que Drummond fala em seu poema A Bruxa, leitor de Horácio e que, mesmo silenciosamente influencia.

Era capaz de reencontrar a inocência onde ela estivesse, com sua incrível capacidade de ver as coisas como se fosse a primeira vez. Um dia estávamos no Central Park, em Nova York, olhando as focas que brincavam no meio de um tanque. Muito sério, de luvas, chapéu e sobretudo, ele olhava para a frente naquele seu jeito meio duramente interrogativo de franzir uma das sobrancelhas em torno do monóculo.

- As focas são inocentes – falou, sério. – Não se incomodam de serem vistas assim, completamente nuas.
Naquele instante se aproximou de nós uma velha amiga e bateu-lhe cordialmente nas costas, de surpresa. 

Com o gesto inesperado, o monóculo se desprendeu do sobrolho (dizia que dava à língua portuguesa a última oportunidade de ainda usar esta palavra), tombou ao chão e se espatifou. Imperturbável, levou a mão ao bolsinho do colete, retirou outra lente, encaixou-a diante do olho e só então como se nada houvesse acontecido é que se voltou para cumprimentar a autora do gesto desastrado.
*


Ó, Jayme! És um Vale de improvisos!

Parte das famosas improvisações verbais de Jayme Ovalle foi salva graças às dificuldades financeiras do poeta Vinicius de Moraes, num entreato de sua vida diplomática, no Brasil. Disposto a amealhar alguns níqueis, propôs uma entrevista com o compositor ao suplemento Flan, do jornal Última Hora, em 1953 – ao lado do parceiro Otto Lara Resende. Amostras:

P – Por que Deus fez as mulheres feias?
R – As normalmente feias Deus fez para casar com homens bonitos. Quanto às irremediavelmente feias, foram feitas por Deus para povoar as igrejas de madrugada, para usarem grandes rosários e serem beatas.

P – Qual a posição política do demônio?
R – É da natureza do Demônio mudar de política conforme os acontecimentos.

P – Você, como católico, aceita o ato sexual independentemente do sentimento da procriação?
R – Eu sou contra qualquer burocracia.

P- Haverá sempre pobres no mundo?
R – Acho que sim… porque senão quem vai dar esmola aos ricos?

Os entrevistadores eram entusiastas da Nova Gnomonia, teoria de classificação da humanidade arquitetada pelo “místico” Jayme Ovalle, ajudado por sopros do arrebatado Augusto Frederico Schmidt. Cada categoria tinha seu anjo padroeiro. Para Vinicius, a Gnomonia “constitui a grande contribuição do Brasil à filosofia do conhecimento do universo”. Essa extraordinária filosofia ganhou registro de Manuel Bandeira, em crônica de 1931. Desde então influenciou platônicos, socráticos, kantianos, marxistas… Filosofia nada ortodoxa, a Gnomonia admite a transição de uma categoria para outra. Com traumas. À suma filosófica:

A NOVA GNOMIA
Manuel Bandeira, Crônicas da Província do Brasil

Tive conhecimento da nova gnomonia por uma conversa de café. O poeta Augusto Frederico Schimidt e o compositor Ovalle debatiam animadamente um ponto da nossa situação interna, particularmente a ação de certo homem político, quando o segundo, inclinando-se para a frente em atitude de advertência, colocou a mão direita no joelho do primeiro e proferiu gravemente:

- Seu Schimidt, vá por mim! Aquele sujeito é do exército do Pará.

Do exército do Pará? Que exército era esse que eu desconhecia? Ovalle explicou: o exército do Pará é formado por esses homenzinhos terríveis que vêm do Norte para vencer na capital da República; são habilíssimos, audaciosos, dinâmicos e visam primeiro que tudo o sucesso material, ou a glória literária, ou o domínio político.

Compreendi. O nome Pará não implica desdouro, senão honra para o grande Estado, torrão natal de homem-símbolo ou Anjo da grande categoria. O meu Pernambuco tem dado muita gente para o exército do Pará, talvez os seus soldados mais típicos.

Da categoria de exército do Pará passamos às demais, que são quatro, abrangendo em linhas gerais os principais tipos de caracteres humanos: os Dantas, os Kernianos, os Onésimos e os Mozarlescos.

Os Dantas são os bons (toda a gente quer ser Dantas), os homens de ânimo puro, nobres e desprendidos, indiferentes ao sucesso da vida, cordatos e modestos, ainda quando tenham consciência do próprio valor. 

Quem deu nome a este grupo foi o jovem jornalista San Tiago Dantas, cuja natureza aliás vai ser questão de debate no próximo 1º congresso na Nova Gnomonia, porque a muitos iniciados parece errada a categoria de Anjo atribuída ao sr. San Tiago (alguns o classificaram no exército do Pará). Não sofre dúvida que o senhor Prudente de Morais, neto (não o político residente em S. Paulo, mas o outro, poeta e crítico da revista Estética) está muito melhor qualificado para o papel de Anjo dos Dantas (uma prova luminosa e até com caráter de revelação está no fato de que, desconhecendo de todo a nova ciência e desejando adotar u m pseudônimo literário, escolheu o de Pedro Dantas com que subscrevia as crônicas literárias da revista A Ordem). O tipo mais perfeito que conheço nessa categoria é a falecida Elizabeth Leseur. Posso citar outros para instrução do público: São Francisco de Assis, Spinoza, o abade dos Noivos de Manzoni, ou mais perto de nós Auta de Souza, Capistrano de Abreu, Amadeu Amaral, a D. Carmo do Memorial de Aires.

Os Kernianos são os impulsivos por excelência. Indivíduos de bom coração, capazes de grande sacrifício pelos outros, deixam-se no entanto arrastar às vezes à prática dos atos mais condenáveis, não por maldade, mas por um impulso irresistível de cólera: ilustra-o bem o caso passado com um kerniano em Nova Pasárgada e é sempre citado como anedota já hoje clássica nesse ramo de estudos. Um empregado público de pequena categoria, irritado com a conduta impolida de uma viúva, não se conteve e lhe deu um pontapé no ventre, de que resultou a morte imediata, porque a infeliz estava grávida. Incontinenti arrependeu-se, arrancou os cabelos, pediu perdão ao cadáver, e sabendo que a viúva deixava onze filhos ao desamparo, tomou-os todos ao seu encargo, criou-os, educou-os com o mesmo carinho que dedicava aos próprios filhos: kerniano puro. O anjo dos kernianos é o Sr. Ari Kerner, autor de sambas e canções que têm alcançado grande voga. A classe é numerossísima. Byron e Verlaine foram Kernianos. Greta Garbo é Kerniana. Nobilíssimo exemplar é o sr. H. Sobral Pinto. Ribeiro Couto é um Kerniano. O sr. Paulo Ribeiro e Magalhães, idem. Kerniano foi o primeiro Imperador. Já Pedro II foi um Mozarlesco.

Difíceis de definir, sem magoar toda a classe, esses caracteres tão interessantes que são os Mozarlescos. Em primeiro lugar – por que assim são denominados? Os Mozarlescos são pessoas que se exprimem ou obram de molde a fornecer aos que os observam uma impressão de coisas consideráveis, ao que todavia não corresponde o conteúdo das suas palavras ou das suas ações. São homens de bem. Acreditam no sufrágio universal. Lêem os ensaios econômicos do sr. Mário Guedes. Manifestam decidido pendor pela pedagogia. Mas repito: por que Mozarlescos? O nome não pode derivar de Mozart, Wolfgang Amadeu, o grande. Este foi um dos tipos mais quintessenciados de Dantas, exemplar verdadeiramente único porque era um Dantas que se apresentava sob as espécies mais infantis e angélicas, naquele extremo limite em que os Dantas confinam de um lado com os Kernianos e por outro com os Onésimos, de que trataremos a seguir. Se houve alguém isento de Mozarlesco por causa da companhia do conselheiro Acácio, do Professor Everaldo Backeuser e outros Anjos classificados nessa categoria. No entanto há formas extremamente sutis e refinadas de Mozarlismos. O grande pintor Cícero Dias, apesar de se revoltar com a classificação (pretende ser um Dantas, embora dê em geral a impressão de Kerniano) é afinal de contas um Mozarlesco, como se depreende bem das suas luas lacrimejantes e da concepção da morte nos seus quadros. Guiraldes, o grande poeta argentino, autor de Don Segundo Sombra, a melhor obra de ficção sul-americana, sentindo-se morrer pediu uma dose de whisky. Como? Whisky na hora por excelência difícil e grave? E Guiraldes explicou aos parentes e amigos que precisava de muita coragem, o caso era muito sério: __ “Ahora hay que hablar com Dios!” Este, sim, não tinha nada de Mozarlesco.

Restam os Onésimos. O anjo da classe é um cavalheiro desse nome, que acercando-se abruptamente de uma roda de Dantas ligados pelas mais estreitas afinidades e que debatiam com o mais puro entusiasmo a questão da salvação do país pelo preparo das elites no sentido neotomista, lançou um frio indescritível na roda, causando evidente mal-estar. O Onésimo onde aparece é assim: duvida, sorri, desaponta; diante dele ninguém tem coragem de chorar. O seu sense of humour sempre vigilante é o terror dos Mozarlescos avisados. Não é que o faça por maldade: os Onésimos não são maus. O drama íntimo dos Onésimos é não sentirem entusiasmo por nada, não encontrarem nunca uma finalidade na vida. Não obstante, se as circunstâncias os colocam inesperadamente num posto de responsabilidade, podem atuar (não todos, é verdade) com o mais inflexível senso do dever. O sr. Gilberto Freire, por exemplo, é Onésimo. Em geral os humoristas são Onésimos. Não os humoristas nacionais, que esses pertencem todos ao exército do Pará (os srs. Mendes Fradique, Raul Pederneiras, Luis Peixoto, etc. Aporelli faz exceção, é Dantas). Mas os grandes humoristas, Sterne, Swift, Heine são Onésimos. O sr. João Ribeiro é um exemplo muito curioso de Onésimo. O escritor paulosta Couto de Barros, outro.

Eis em linhas gerais o arcabouço do novo sistema. Cumpre advertir que os tipos puros são raríssimos. Um Dantas pode revelar traços de Onésimos, de Mozarlesco, de Kerniano e até mesmo (mas isso raramente) de exército do Pará. Todavia um Mozarlesco nunca se revela Onésimo, salvo na capacidade de dar azar, o que é também atributo Onésimo. O que determina em última análise a classificação é a dominante. Convém igualmente salientar que do exército do Pará podem fazer parte tipos superiores da humanidade. Santo Inácio de Loiola e Anchieta, o padre Vieira, o padre Leonel da Franca, por exemplo, eram do exército do Pará.

Para mostrar a complexidade dos problemas ligados a esse ramo novo de pesquisas, basta citar algumas obras mais notáveis da sua rica bibliografia:

“Categorias gnomônicas” (Pedro Dantas);
“Do caráter kerniano de Judas” (Gilberto Freyre);
“Um charlus pode ser Dantas?” (Jaime Ovalle).
*

Fotografia publicada no Flan, o poeta Vinicius de Moraes acende o cigarro do "místico" Jayme Ovalle. Ao centro, o escritor Otto Lara Resende.

OVALLE
Manuel Bandeira

Estavas bem mudado.
Como se tivesses posto aquelas barbas brancas
Para entrar com maior decoro a Eternidade.

Nada de nós te interessava agora.
Calavas sereno e grave
Como no fundo foste sempre
Sob as fantasias verbais enormes
Que fazias rir os teus amigos e
Punham bondade no coração dos maus.

O padre orava:
- "O coro de todos os anjos te receba..."
Pensei comigo:
Cantando "Estrela brilhante
Lá do alto-mar!..."

Levamos-te cansado ao teu último endereço.
Vi com prazer
Que um dia afinal seremos vizinhos.
Coversaremos longamente
De sepultura a sepultura
No silêncio das madrugadas
Quando o orvalho pingar sem ruído
E o luar for uma coisa só.
*



A última viagem de Jayme Ovalle
Vinícius de Moraes

Ovalle não queria a Morte 
Mas era dele tão querida 
Que o amor da Morte foi mais forte 
Que o amor do Ovalle à vida. 

E foi assim que a Morte, um dia 
Levou-o em bela carruagem 
A viajar - ah, que alegria! 
Ovalle sempre adora viagem! 

Foram por montes e por vales 
E tanto a Morte se aprazia 
Que fosse o mundo só de Ovalles 
E nunca mais ninguém morria. 

A cada vez que a Morte, a sério 
Com cicerônica prestança 
Mostrava a Ovalle um cemitério 
Ele apontava uma criança. 

A Morte, em Londres e Paris 
Levou-o à forca e à guilhotina 
Porém em Roma, Ovalle quis 
Tomar a sua canjebrina. 

Mostrou-lhe a Morte as catacumbas 
E suas ósseas prateleiras 
Mas riu-se muito, tais zabumbas 
Fazia Ovalle nas caveiras. 

Mais tarde, Ovalle satisfeito 
Declara à Morte, ambos de porre: 
- Quero enterrar-me, que é um direito 
Inalienável de quem morre! 

Custou-lhe esforço sobre-humano 
Chegar à última morada 
De vez que a Morte, a todo pano 
Queria dar uma esticada. 

Diz o guardião do campo-santo 
Que, noite alta, ainda se ouvia 
À voz da Morte, um tanto ou quanto 

Que ria, ria, ria, ria...
*

Aquarela e Nanquim de Marc Chagall (biélorusso, 1887-1985)

Uma fábula rasa

Disse que era uma fábula estar ali com ele – e era. Não usou de muitas palavras, mas os gestos explodiram em curvas, aproximações, movimentos entre um realidade e sua pálida estrutura. Disse também que era bom não existir de onde veio, mas acontecer ali, vinda de mala e cuia, para mostrar a ele o que os bichos fazem quando falam. E então recitou Bandeira de cabo a rabo enquanto ele fazia o café.

- Sabes que Virgínia Woolf...

E não terminava a frase, porque mastigava numa só vez enredos, pedaços de milagre, baldeações entre Maiakovski, Baudelaire, Kafka, Anna Ahkmatova. E eles, eram, claro, bichos de um tipo de noite que até de dia, mesmo entre os homens das esquinas, soía acontecer. Eram os fabulosos para si mesmo, encantados que estavam entre si, e por romper com o roteiro apertado de uma palestra e o encontro com aquela cidade tão Brasil.

Escuta mais esta – ela não podia conter dentro de si tanta vida sem passar adiante, com urgência passional, o que doía guardar.
Era uma fábula:

Águia encontra cobra que se desentoca do buraco. Só a cabeça, para entender o mundo. Mas águia, agitada, tenta convencer que fique metade do corpo dentro, metade fora. Dá uns sobrevoos para se exibir, mas no fim, prefere, entre bicadas de advertência, que cobra seja apenas pela metade. A cobra, claro, não entende, mundo é mundo, tanto o de dentro quanto o de fora, e tanto faria estar toda fora ou toda dentro. Cobra continuaria cobra. Águia, águia. Mas estavam no meio da discussão e veio um vento e a vida ficou mais cheia de tudo. De serpentes e pássaros. De mendigos e reis. Cidades e mangues. Bichos e gentes. Lombras e lembranças.

Houve um instante de expectativa sem moral. Depois, passaram a amar tudo o que os envolvia, filmes, poemas, ventos, pequenas e grandes fomes, penetrações no escuro. Fiel é constatar o que fica. Mesmo o que parece fugir (Essa antimoral foi dita pouco antes de deixa-la no aeroporto, com a leveza mais que voo que ela, de bilhete, ia pegar). E só não foram felizes ou infelizes para sempre porque a história não tem fim.
*

domingo, 27 de novembro de 2011

Só Souco! Só Zoeta!

Grafismos, Carla Diacov

O ELOGIO DO QUOTIDIANO
Tzevetan Todorov, Éloge du Quotidien - Essai sur la peinture hollandaise du XVII siècle. Citado por Luís Henriques, em Cidade Triste e Alegre, Revista Intervalo n.º 4, Lisboa.

A vida quotidiana - quem não o sabe? - não é forçosamente alegre. Muito frequentemente é mesmo sufocante: uma repetição de gestos que se tornaram mecânicos, um afundamento nas preocupações impostas sem a possibilidade de levantar a cabeça, um esgotamento das forças no objectivo simples de sustentar a existência, a própria e a dos próximos [...]

A nossa sociedade soube agir sobre uma das causas de aflição que se pode experimentar no quotidiano, a fadiga física, substituindo a força humana pela acção das máquinas: o homem extenuado pelos esforços está mal colocado para gozar a qualidade de cada instante. Mas não soube, ou não quis, inflectir o nosso sistema de valores para que pudéssemos apreciar a beleza de cada gesto, dirigido aos objectos ou aos seres que nos rodeiam: apreciamos sobretudo a eficácia, transformando em meio, senão em instrumento, os nossos próximos e nós próprios.
*



ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA
Fernando Pessoa, Cancioneiro

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,
Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há
*

AMOR NO HOSPÍCIO
Dylan Thomas; Trad. Ivan Junqueira

Uma estranha chegou
A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros

Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito em desordem
Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus

Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.

Chegou possessa
Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pêlos céus
Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira
E no entanto delira à vontade
Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.

E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim
Posso de fato
Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.
*

Cândido Portinari (brasileiro, 1903-1962). Quixote e Sancho Pança, desenhos.

DISQUISIÇÃO NA INSÔNIA
Carlos Drummond de Andrade

‎Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?

O que, acordado, sonha doidamente?

O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.
*

O LOUCO
Gibran Khalil Gibran

            Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

            Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

            Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

            E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

            Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

            Assim me tornei louco.

            E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
*


Leonora Carrington (britânica-mexicana, 1917-2011), Óleo sem título.

NAMORADOS
Manuel Bandeira, Libertinagem, 1936.

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:

— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.

A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?

A moça se lembrava:

— A gente fica olhando...


A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doçura:

— Antônia, você parece uma lagarta listada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.


O rapaz concluiu:

— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.
*

Inês Pais, The Nude Clown III. Imagem impressa a jacto de tinta sobre papel, 70x100 cm., 2010.

O POEMA DE UM LOUCO
Alvarez Azevedo, Fragmento de O Conde Lopo

There is something which I dread It is a dark, a fearful thing..

. . . . . . . .

That thought comes o'er me in the hour Of grief,
of sickness, of sadness 'Tis not the dread of death!
'tis more -It is the dread of madness.

Lucretia Davidsoni

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo
Crestou-lhe o peito, devorou seus dias
E a febre ardente desbotou-lhe a fronte
Em dores sós, em delirar insano.

Foi poeta: cantou, sonhou: a vida
Canto e sonhos lhe foi. Amor e glória
Com asas brancas viu sorrindo em vôos.
Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhos
A fronte lhe acenderam, lhe estrelaram
Mágico da existência o firmamento.
Cantou, sonhou-amou:: cantos e sonhos
Em amor converteu-os. De joelhos
Em fundo enlevo ele esperou baixasse
Alguma luz do céu, que amor dissesse-

Anjo ou mulher! embora que ele a amara
C'o fogo queimador que o consumia
Com o amor de poeta que o matava!
Anjo ou mulher-embora! e em longas preces
Noite e dia o esperou-Mísero! Embalde!

Sonhou-amou-cantou: em loucos versos
Evaporou a vida absorta em sonhos-
E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos
Que sobre as mortas ilusões já findas
Pálido derramara-
Amou! E um peito
Junto ao seu não ouviu bater consoante
C'os amores do seu! Ninguém amou-o
E nem as mágoas lhe afogou num beijo!

-E morreu sem amor.-Bateu-lhe embalde
O pobre coração em loucas ânsias.
Passou ignoto, solitário e triste
Entre os anjos do amor, só viu-lhe risos
Em braços doutros-e invejosa mágoa
Essa alheia ventura só lhe trouxe.
Nunca a mão dele de uma fronte branca
A alva coroa fez cair da virgem-
Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma

Entre as rosas da vida-mas nenhuma
Nem deu-lhe um riso-nem do moço pálido
No imo d'alma guardou uma saudade!

Mas se à terra saudades não deixara
Não levou-as também-do peito o orgulho
Que ninguém quis amar, ninguém amou.
-Foi-lhe quimera o amor, não mais lembrou-o,
Tentou-o ao menos. -E que importa um morto?
- Doido é quem geme em lagrimar estéril-
Quando o luto findou e alegre o baile
Corre entre flores no valsar, quem lembra
O defunto que é podre no jazigo?
-Morrera-lhe o sonhar-por que chorá-lo?

E morreu sem amor! E ele contudo
Tinha no peito tanto amor e vida!
Alma de sonhos, tão ardentes, cheia!
E anelante do amor do peito-em outro
Em horas ternas efundir em beijos!

E às vezes quando a fronte pela febre
Pesada e quente sobre as mãos firmava,
Quando esse delirar febril da insônia
Em vertigens travava de sua alma,
Um negro pensamento lhe passava
Como um fuzil no cérebro fervente,
E pensava dos loucos no delírio,
Na escura treva da vertigem tonta!
Temia-a morte não-mas-a loucura.
*

Georges Seurat (francês, 1859-1891). Au Divan japonais, conté crayon and gouache on paper. 1887-88, Private Collection.


ORA ATÉ QUE ENFIM
Álvaro de Campos, Poemas

Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
*

Arthur Bispo do Rosário (brasileiro, 1911-1989). 'Instalação: Planetas.

OS LOUCOS
António Osório, A Ignorância da Morte

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.
*

SER DOIDO-ALEGRE, QUE MAIOR VENTURA!
António Aleixo, Este Livro que Vos Deixo...

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.
*

Louise Bourgeois (francesa, 1911-2010). RIP.

DEMASIADA LOUCURA É O MAIS DIVINO JUÍZO

Emily Dickinson, Poemas e Cartas; Trad. Nuno Júdice

Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objecta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -
*

Bluebird, C. Bukowski [a canção de fundo é Hurt, do Nine Inch Nails, na versão de Johnny Cash!]

EXCERTOS 
F.Nietzsche, A Canção Bêbada

Em ar diáfano,
quando já o consolo do orvalho
ressuma sobre a terra,
invisível e também sem se ouvir
- pois o consolador orvalho traz,
como todos os suavizadores,calçado leve -
lembras-te então,lembras-te,ardente coração,
da tua sede de outrora,
sede de lágrimas celestes e de orvalhos,
tu crestado e cansado,
enquanto sobre atalhos de erva seca
maldosos olhares do sol da tarde
em torno a ti corriam por entre árvores negras,
olhares de sol em brasa,cegantes e cínicos.

"Pretendente da Verdade - tu?" assim eles te escarneciam

"Não!só um Poeta!

um bicho, manhoso, de rapina, rastejante,
que tem de mentir,
que ciente e voluntàriamente tem de mentir,
ávido de presa,
de disfarces multiclores,
de si mesmo disfarce,
de si mesmo presa,
isso - Pretendente da Verdade?...

Só Louco! só Poeta!
Dizendo só coisas multiclores,
falando multiclor por máscaras de louco,
trepando sobre pontes mentirosas de palavras,
sobre arcos-íris de mentiras
entre falsos céus
vagueando, rastejando -
só Louco! só Poeta!...
*

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As nuvens são para não serem vistas. - João Guimarães Rosa, in: Nenhum, nenhuma.

Paul Klee (sueco, 1879-1940).

O CÉU DA IMAGEM
José Carlos Avellar, O chão da palavra - Cinema e Literatura no Brasil. Ed. Rocco, 2007.

Nuvens (a flora e a fauna leves de países de vento, diz João Cabral de Melo Neto) são uma presença regular em textos poéticos, como uma possível representação de uma etapa do processo artístico (ou mesmo do artista que, como disse Maiakóvski em 1916 no poema Nuvem de calças / Oblako v shtanakh, se pensa em movimento; “como céu de primavera que muda sem aviso”, Maiakóvski escreve que decide também sem aviso deixar de ser gente: “passo a ser uma nuvem de calças”).

Nuvens: Oswald de Andrade descobriu certa vez que deitadas lá em cima entre as montanhas elas se secavam ao sol; Guimarães Rosa descobriu que na jarra clara da manhã elas planavam qual garças brancas, dançavam qual fadas alvas, cantavam qual almas aladas.

Nuvens (voltemos a João Cabral de Melo Neto: estátuas em vôo a beira mar plantadas ) mais ainda do que nos poemas, são presença regular nas artes plásticas. Mas o fato disto que sempre esteve presente na paisagem (mas por trás da paisagem) saltar para primeiro plano parece ter algo a ver com a invenção da fotografia e do cinema. Talvez, para a sensibilidade formada pelo livro nada mais parecido com nuvem que o registro fotográfico de uma fração mínima de tempo e o registro cinematográfico do tempo passando.

Desta forma, entre 1818 e 1822, ao mesmo tempo em que se inventava o processo fotográfico (principalmente por meio das experências de Nicéphore Niépce) John Constable pintava muito rapidamente estudos de nuvens para deste modo fotografar a leveza dos paises de vento. E entre 1911 e 1915, ao mesmo tempo em que o cinema começa a deixar de ser uma cópia conforma de uma cena real ou de uma cena teatral para inventar um processo narrativo próprio, Emil Nolde enquadra em primeiro plano suas nuvens de verão. E em 1931, ao mesmo tempo em que Eisenstein filma ¡Que viva México! Doctor Atl pinta no céu mexicano nuvens semelhantes às que pouco mais tarde Gabriel Figueora irá colocar nos filmes de Emílio Fernández.
*
John Constable (inglês1776-1837). Estudo de nuvens com árvores no horizonte, 27 de setembro de 1821.

LÍNGUA
Chen Dongdong

As espáduas da rocha se abrem, as asas da fragata se estendem
o sol zumbindo como um escaravelho
entra sem querer na sala branca,
bem mais longe um barco vermelho se achega lentamente como um outro crepúsculo
de verão

Nos meus olhos, entre meus dedos
brilha o sal
e aquela lembrança nas profundezas da mente,
agora ornada de verde, percorre todo o pórtico cantando e dançando muda

Quando as nuvens finalmente se quebram
e cardumes de peixes são empurrados ao pagode do mar
a lâmpada pode incendiar de repente todas as pontas dos ramos
iluminar a tua e a minha língua.
*

Ivan Aivazovsky, Clouds above a sea (detalhe), calm, 1899, óleo sobre tela, 112 x 146 cm. The State Russian Museum, São Petersburg.

FRAGMENTO
Luigi Pirandello, Um, nenhum e cem mil; trad. Maurício Santana Dias.

Ai, ai. Nuvens? Vento? E não lhes parece suficiente perceber e reconhecer que aquilo que veleja luminoso pela vacuidade infindável e azul são nuvens? Ela sabe por acaso que existe, a nuvem? Tampouco os abetos e as pedras sabem dela, os quais ignoram inclusive a si mesmos e estão sozinhos.

Percebendo e reconhecendo a nuvem, vocês podem, meus caros, pensar até na história da água (e por que não?) que se torna nuvem para tornar-se de novo água. Sim, uma grande coisa. E um pobre professorzinho de física já bastaria para lhes explicar esse fenômeno. Mas quem explica o porquê do por quê?
*

John Constable, Cloud study (detalhe), 1822, óleo sobre papel colado em placa, 30,5 x 49 cm. Courtauld Institute Galleries, Londres.

A TERRA É CURVA
Gu Cheng, janeiro 1981

A terra é curva
não consigo ver-te
consigo apenas ver longe
o céu azul no teu coração

azul? Azul
aquele azul é a língua
queria mostrar ao mundo a felicidade
mas o sorriso gela nos cantos da boca

Ou então me dar uma nuvem
para romper as horas ensolaradas
meus olhos precisam de lágrimas
meu sol precisa de sono.
*

Doctor Atl (Gerardo Murillo, mexicano, 1875-1964). A nuvem, 1931. Virtual Museum

NUVENS
Audemir Leuzinger, Poema Dia

Rezando pela minha paz,
Necessário seria que
As folhas ficassem ali, como loucos não varridos.
Nuvem da fumaça dos incensos e defumadores.
Uma imagem para o coletivo de gafanhotos.
Pelas janelas e portas,
Como que em capítulos,
Saí desmembrado dos cômodos da minha casa.
Levando tudo de mais pesado, meu livro.
Autêntico e único original trabalho.
O Breviário de Conjugação das Nuvens.

Nuvens de tantos pássaros,
Como corvos e urubus.
Estas nuvens, de quando em vez,
Se fortalecem pousando na minha sorte.
Refletindo a luz da lua,
Como se de prata fosse,
Uma nuvem de corvos pousou ontem à noite.
Corvos entre as nuvens são como esperanças
No medo das minhas orações.

Em nome de leveza e velocidade
Queria conjugar verbos como "chover"
Na primeira pessoa do singular.
Chover que é sinônimo de purgar no meu Breviário.
Não posso passar em brancas nuvens
Pela tabuada dos rios
Ou pelas equações do gelo.
E muito menos pela anatomia humana.

Se isto acontecer
Deixaria pela primeira vez se perder
A memória da água.
*


Emil Nolde (alemão, 1867-1956). Nuvens de verão, 1913. Acervo do Museu Thyssen-Bornemisza de Madrid.

NUVENS SOBRE A FLORESTA
Alberto Caeiro, Cancioneiro

Nuvens sobre a floresta...
Sombra com sombra a mais...
Minha tristeza é esta
A das coisas reais.

A outra, a que pertence
Aos sonhos que perdi,
Nesta hora não me vence;
Se a há, não a há aqui.

Mas esta, a do arvoredo
Que o céu sem luz invade,
Faz-me receio e medo...
Quem foi a minha saudade?
*


Gina Ruggeri, Cloud Drift II, 2009, Acrylic on Mylar, cut-out 64" x 66".


NUVENS
Álvaro de Campos, Poemas

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
Obrigações morais e civis?
Complexidade de deveres, de consequências?
Não, nada...
O dia triste, a pouca vontade para tudo...
Nada...

Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive),
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em todo o novo...

Não sentem: por isso são deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
Vão a todos os teatros e conhecem gente...
Não sentem: para que haveriam de sentir?
Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se...
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Para o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer...

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
No dia triste todos os dias...
No dia tão triste...
*

John Constable, Estudo das nuvens. Real Academia das Artes, Londres.


O ESTRANGEIRO
Charles Baudelaire, Les Petits Poèmes en prose, 1869.

- Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? De seu pai, de sua mãe, de sua irmã ou de seu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Amigos?
- Você usa de palavras cujo sentido até aqui desconheço.
- Pátria?
- Ignoro a que latitude se situa.
- Beleza?
- Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
- O ouro?
- Odeio-o como você odeia a Deus.
- Mas que gosta então, estrangeiro extraordinário?
- Das nuvens... as nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!
*

Yo-Yo Ma toca Prelude from Bach´s Cello Suite No.1. Nuvens sobre Norther Phoenix, Az.

domingo, 16 de outubro de 2011


Pablo Diego José Francisco de Paula Juan Nepomuceno María de los Remedios Cipriano de la Santísima Trinidad Ruiz y Picasso (espanhol, 1881-1973), Mulher Doida com Gatos, 1901. Siga com a versão de Rehab com The Jolly Boys.


Relâmpago nº 3

Herberto Hélder


De todos os pontos a todos os pontos da trama luminosa, ao fundo da assembleia, sentadamente muda morrendo e ressuscitando segundo a respiração na noite das salas, a mão instruída nas coisas mostra, rodando quintuplamente esperta, a volta do mundo, a passagem de campo a campo, fogo, ar, terra, água, éter (ether), verdade transmutada, forma.

*

POEMA

Marina Tsvetaeva; trad. Haroldo de Campos


Mão esquerda contra a direita.

Tua alma e minha alma - tentes.

Fusão, beatitude que abrasa.

Direita e esquerda - duas asas.

Roda o tufão, o abismo fez-se

Da asa esquerda à asa direita.

*


Cabelo: ‘O mercado de arte é um panelão, restrito a uma elite econômica raramente pensante’

Por Luciano Trigo, in: Máquina de escrever
Capa
Um dos artistas plásticos mais originais de sua geração, Rodrigo Saad, vulgo Cabelo, tem sua obra revista e analisada no livro que leva seu nome, recém-lançado pela editora  Artedardo (134 pgs. R$ 60). Sinal de reconhecimento, mas também de institucionalização: virar livro, de certa forma, é ganhar uma carteira permanente do sistema da arte. Cabelo, contudo, não pensa muito nisso, nem se acanha em criticar as práticas não-democráticas desse sistema, no Brasil e no mundo: “O mercado de arte não é democrático nem aqui nem lá fora, pois é restrito à uma elite, elite econômica mas raramente pensante, que muitas vezes consome arte da mesma maneira que compra artigos de luxo na Daslu”, afirma.
Nascido em 1967 em Cachoeiro de Itapemirim, no espírito Santo, Cabelo mudou-se ainda criança para o Rio de Janeiro. Abandonou na metade a faculdade de Engenharia para criar minhocas, o que muito influenciou seu pensamento. Freqüentou aulas no Parque Lage e, no começo dos anos 90, era mais conhecido como integrante da banda Boato que como artista visual. Recentemente, voltou a se dedicar à música, compondo funks com  a alcunha de MC Fininho. Nesta entrevista, Cabelo conta um pouco de sua trajetória e diz que a matriz de sua obra é a poesia, “que pode se manifestar através de um desenho, poema, escultura, performance ou canção”.
- Ter um livro publicado sobre a sua obra representa uma consagração, mas também, de certa forma, uma institucionalização. Como você lida com isso?
CABELO: Este livro é um registro de vários momentos da minha trajetória, com textos críticos de Paulo Reis, Jacopo Crivelli Visconti e David Barro. Fico satisfeito de ele poder circular e oferecer às pessoas a oportunidade de conhecer um pouco mais sobre minha obra. Quanto à questão da consagração e institucionalização, sinceramente, não penso a respeito.
- Fale sobre o seu processo de criação: como nasce uma obra? Dê exemplos. Muda quando é desenho e quando é performance? E quando é música?
CABELO: Não trabalho diariamente em ateliê. Meu ateliê é o instante. A obra realiza-se no gerúndio, no aqui e agora, em constante processo de transformação. A matriz da obra é a poesia, que pode se manifestar através de um desenho, poema, escultura, performance ou canção. O corpo do poeta é uma usina, um templo, um campo atravessando campos, e é nesse atravessar que ele experimenta situações de toda ordem (ou desordem), eventos ordinários e extraordinários. Um refrão de uma música pode surgir como eco, reverberação, ou mesmo testemunho de uma experiência, e depois vir a aparecer caligraficamente num desenho, saindo da boca de um personagem. Gosto daquela placa “DESVIO OBRAS”: é no trânsito do meu corpo, no seu ir e vir, que recolho matéria (e imatéria) para trabalhar, e para que se cumpra a realização desse encargo desvios são necessários; é no exercício da liberdade da sua linguagem, de seu ser no mundo, que o artista supera obstáculos, criando artifícios, estratégias, para desafiar e burlar certas leis, inclusive a lei da gravidade.
- Como foi sua infância em Cachoeiro de Itapemirim, que experiências foram marcantes lá? Que relação sua família tinha com a arte? Quando e por quê você se mudou para o Rio?
CABELO: Nasci em Cachoeiro mas quem morava lá era minha avó. Ela tinha uma casa à beira do Rio Itapemirim, onde eu passava longas temporadas. Essa casa foi meu primeiro laboratório, carrego na memória não só seus aposentos como todas as experiências vividas ali: o contato intenso com cães, pássaros, insetos, lagartos, lagartixas de que eu arrancava o rabo só para ver balançando… Recordo-me também do infortúnio das cheias, do cheiro de terra que levantava com a chuva, e dos personagens da rua, como as andarilhas Taruíra e Maria Fumaça, que muito me marcaram. A maioria das pessoas da minha família não tinha qualquer relação com a arte, mas algumas tias pintavam panelas de barro, como tia Salu, que fazia esculturas com miolos de pão e me ensinou a capturar moscas com a mão. Morei em Vitória até os 5 anos e vim para o Rio por causa do trabalho do meu pai.
- Você largou mesmo a faculdade de engenharia para cria minhocas? De que forma essa experiência foi importante?
CABELO: Ao abandonar a faculdade de Engenharia, por total falta de vocação, visitei uma fazenda onde havia uma criação de minhocas. Elas eram colocadas em canteiros e se alimentavam do estrume das vacas. Em 45 dias tranformavam todo aquele estrume em húmus, um excelente adubo orgânico. Fiquei fascinado pelo poder alquímico desses anelídeos (tranformar merda em húmus, como chumbo em ouro) e isso muito influenciou meu pensamento, já que vivemos numa sociedade superprodutora de dejetos, materiais e imateriais .
O mercado de arte é restrito a uma elite, elite econômica mas raramente pensante, que muitas vezes consome arte da mesma maneira que compra artigos de luxo na Daslu.
Boato- O Boato foi criado em 1989. Naquele moimento você queria seguir a carreira de músico ou já imaginava que enveredaria pelas artes plásticas? Quais são as lembranças mais marcantes do Boato?
CABELO: Já nesta época as atividades de músico e artista plástico corriam paralelas. Só depois, com o fim do Boato, as artes plásticas, durante um bom tempo, tomaram uma proporção maior que a música. Do Boato tenho muitas boas lembranças, como shows no Circo Voador, o CEP 20.000, performances espontâneas nas ruas, apresentações em hospitais psiquiátricos e o lançamento do disco “Abracadabra” no Teatro Alaska, com a participação de Rogéria cantando New York, New York.
- Fale sobre a sua relação com o funk. Por que esse gênero, especificamente?
CABELO: O heterônimo Mc Fininho surgiu para dar vazão aos funks que componho e não cabem no repertório do Cabelo. O funk, queira ou não, é uma das manifestações musicais mais potentes surgidas no Rio de Janeiro, como fenômeno estético e social, e tal e qual o samba quando surgiu é perseguido e estigmatizado. A utilização de samples, colagens, paródias, barulhinhos eletrônicos e elementos afro-brasileiros, como o tamborzão, o tornam ainda mais original. Gosto da crueza e do espírito “faça você mesmo” do funk, que muitas vezes estâo presentes também na minha obra plástica. Suas bases sâo suporte tanto para um papo reto, com densidade política e poética, como para climas maliciosos e bem humorados. Só nâo aprovo essas músicas com letras de putaria explícita.
- Como você analisa o mercado de arte contemporânea no Brasil? É democrático ou dominado por panelinhas?
CABELO: O mercado de arte não é democrático nem aqui nem lá fora, pois é restrito a uma elite, elite econômica mas raramente pensante, que muitas vezes consome arte da mesma maneira que compra artigos de luxo na Daslu.Todo mercado é formado por panelas: panela da moda, panela do futebol, panela do agrotóxico, da feira livre, das feiras de arte… O mercado é um panelão cheio de panelas e panelinhas. O que será que tanto cozinham? Ninguém mais come cru?
- Cildo Meireles cunhou a expressão “curadorismo” para criticar o poder excessivo que os curadores ganharam no Brasil. Você concorda? Qual deve ser o papel de um curador?
CABELO: Muitas vezes podemos notar um vínculo e comprometimento excessivos da curadoria com os interesses do mercado, gerando uma certa promiscuidade entre curadores, galerias e instituiçôes; daí esse excessivo poder de que fala o Cildo. Ao mesmo tempo há exercícios de curadoria potentes e originais. O importante é nâo deixar transformar a cura em curra.
- Com que artistas em atividade você mais dialoga? E quais foram as suas principais influências?
CABELO: Tunga, Jarbas Lopes, Artur Barrio, Marcos Chaves, Raul Mourâo, Ernesto Neto, Alexandre Vogler, Guga Ferraz e muitos outros. As influências vâo desde Cildo Meireles, Barrio, Tunga e Joseph Beuys a Heráclito de Éfeso, Jorge de Lima, Paulo Leminski, Sex Pistols, Dead Kennedys, Jorge Ben Jor, Fela Kuti, Garrincha…
Cefalópode
- Uma obra sua ficou famosa pela polêmica, aquela em que peixinhos morrem num aquário em chamas. Como você analisa hoje a reação negativa que aconteceu na Documenta de Kassel em 1997, por exemplo?
CABELO: A reação negativa foi por conta dos ecologistas de plantão. Os peixes corriam risco, mas nem sempre morriam. Perguntei a uma mulher que protestava contra minha obra por quê ela não ia protestar em frente ao restaurante a 100 metros dali que servia peixe nas refeições. Se há peixes para encher a barriga há outros que alimentam o espírito.
*

NA BOCA
Manuel Bandeira, Libertinagem, 1936.

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer
[vontade aos viciados

Dorinha meu amor...

se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como
[o outro:
- Na boca! Na boca!
*

Qadós
Hilda Hilst

Andei no meio desses loucos, fiz um manto dos retalhos que me deram, alguns livros debaixo do braço e se via alguém mais louco que os outros, mais aflito, abria um dos livros ao acaso, deixava o vento virar as folhas e aguardava. O vento parou: eis o recado para o outro: sê fiel a ti mesmo e um dia serás livre. Prendem-me. Uma série de perguntas: qual é o teu nome? Qadós. Qa o quê? Qadós de quê? Isso já é bem difícil. Digo: sempre fui só Qadós. Profissão: Não tenho não senhor. Só procuro e penso. Procura e pensa o quê? Procuro uma maneira sábia de me pensar. Fora com ele, é louco, não é da nossa alçada, que se afaste da cidade, que não importune os cidadãos.
*

SOB O SOL
Paul Valéry; trad. Augusto de Campos

Sob o sol em meu leito após a água -
Sob o sol e sob o reflexo enorme do sol sobre o mar,
Sob a janela,
Sob os reflexos e os reflexos dos reflexos
Do sol e dos sóis sobre o mar
Nos vidros,
Após o banho, o café, as ideias,
Nu sob o sol em meu leito todo iluminado
Nu - só - louco -
Eu!
*