domingo, 27 de novembro de 2011

[Ano I, No. 13 - 2011] SÓ SOUCO! SÓ ZOETA!

Grafismos, Carla Diacov

O ELOGIO DO QUOTIDIANO
Tzevetan Todorov, Éloge du Quotidien - Essai sur la peinture hollandaise du XVII siècle. Citado por Luís Henriques, em Cidade Triste e Alegre, Revista Intervalo n.º 4, Lisboa.

A vida quotidiana - quem não o sabe? - não é forçosamente alegre. Muito frequentemente é mesmo sufocante: uma repetição de gestos que se tornaram mecânicos, um afundamento nas preocupações impostas sem a possibilidade de levantar a cabeça, um esgotamento das forças no objectivo simples de sustentar a existência, a própria e a dos próximos [...]

A nossa sociedade soube agir sobre uma das causas de aflição que se pode experimentar no quotidiano, a fadiga física, substituindo a força humana pela acção das máquinas: o homem extenuado pelos esforços está mal colocado para gozar a qualidade de cada instante. Mas não soube, ou não quis, inflectir o nosso sistema de valores para que pudéssemos apreciar a beleza de cada gesto, dirigido aos objectos ou aos seres que nos rodeiam: apreciamos sobretudo a eficácia, transformando em meio, senão em instrumento, os nossos próximos e nós próprios.
*


ESTA ESPÉCIE DE LOUCURA
Fernando Pessoa, Cancioneiro

Esta espécie de loucura
Que é pouco chamar talento
E que brilha em mim, na escura
Confusão do pensamento,
Não me traz felicidade;
Porque, enfim, sempre haverá
Sol ou sombra na cidade.
Mas em mim não sei o que há
*

AMOR NO HOSPÍCIO
Dylan Thomas; Trad. Ivan Junqueira

Uma estranha chegou
A dividir comigo um quarto nessa casa que anda mal da cabeça,
Uma jovem louca como os pássaros

Que trancava a porta da noite com seus braços, suas plumas.
Espigada no leito em desordem
Ela tapeia com nuvens penetrantes a casa à prova dos céus

Até iludir com seus passos o quarto imerso em pesadelo,
Livre como os mortos,
Ou cavalga os oceanos imaginários do pavilhão dos homens.

Chegou possessa
Aquela que admite a ilusória luz através do muro saltitante,
Possuída pêlos céus
Ela dorme no catre estreito, e no entanto vagueia na poeira
E no entanto delira à vontade
Sobre as tábuas do manicômio aplainadas por minhas lágrimas deâmbulas.

E arrebatado pela luz de seus braços, enfim, meu Deus, enfim
Posso de fato
Suportar a primeira visão que incendeia as estrelas.
*

Cândido Portinari (brasileiro, 1903-1962). Quixote e Sancho Pança, desenhos.

DISQUISIÇÃO NA INSÔNIA
Carlos Drummond de Andrade

‎Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo como escudeiro?
De nós dois, quem o louco verdadeiro?

O que, acordado, sonha doidamente?

O que, mesmo vendado,
vê o real e segue o sonho
de um doido pelas bruxas embruxado?

Eis-me, talvez, o único maluco,
e me sabendo tal, sem grão de siso,
sou — que doideira — um louco de juízo.
*

O LOUCO
Gibran Khalil Gibran

            Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:

            Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!”

            Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.

            E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É um louco!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

            Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”

            Assim me tornei louco.

            E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa em nós.
*


Leonora Carrington (britânica-mexicana, 1917-2011), Óleo sem título.

NAMORADOS
Manuel Bandeira, Libertinagem, 1936.

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:

— Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com a sua cara.

A moça olhou de lado e esperou.
— Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê uma lagarta listada?

A moça se lembrava:

— A gente fica olhando...


A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prosseguiu com muita doçura:

— Antônia, você parece uma lagarta listada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.


O rapaz concluiu:

— Antônia, você é engraçada! Você parece louca.
*

Inês Pais, The Nude Clown III. Imagem impressa a jacto de tinta sobre papel, 70x100 cm., 2010.

O POEMA DE UM LOUCO
Alvarez Azevedo, Fragmento de O Conde Lopo

There is something which I dread It is a dark, a fearful thing..

. . . . . . . .

That thought comes o'er me in the hour Of grief,
of sickness, of sadness 'Tis not the dread of death!
'tis more -It is the dread of madness.

Lucretia Davidsoni

Foi poeta: cantou, e o estro em fogo
Crestou-lhe o peito, devorou seus dias
E a febre ardente desbotou-lhe a fronte
Em dores sós, em delirar insano.

Foi poeta: cantou, sonhou: a vida
Canto e sonhos lhe foi. Amor e glória
Com asas brancas viu sorrindo em vôos.
Foi-lhe vida sonhar: e ardentes sonhos
A fronte lhe acenderam, lhe estrelaram
Mágico da existência o firmamento.
Cantou, sonhou-amou:: cantos e sonhos
Em amor converteu-os. De joelhos
Em fundo enlevo ele esperou baixasse
Alguma luz do céu, que amor dissesse-

Anjo ou mulher! embora que ele a amara
C'o fogo queimador que o consumia
Com o amor de poeta que o matava!
Anjo ou mulher-embora! e em longas preces
Noite e dia o esperou-Mísero! Embalde!

Sonhou-amou-cantou: em loucos versos
Evaporou a vida absorta em sonhos-
E debalde! ninguém chorou-lhe os prantos
Que sobre as mortas ilusões já findas
Pálido derramara-
Amou! E um peito
Junto ao seu não ouviu bater consoante
C'os amores do seu! Ninguém amou-o
E nem as mágoas lhe afogou num beijo!

-E morreu sem amor.-Bateu-lhe embalde
O pobre coração em loucas ânsias.
Passou ignoto, solitário e triste
Entre os anjos do amor, só viu-lhe risos
Em braços doutros-e invejosa mágoa
Essa alheia ventura só lhe trouxe.
Nunca a mão dele de uma fronte branca
A alva coroa fez cair da virgem-
Jovem, solteiro, sem consórcio d'alma

Entre as rosas da vida-mas nenhuma
Nem deu-lhe um riso-nem do moço pálido
No imo d'alma guardou uma saudade!

Mas se à terra saudades não deixara
Não levou-as também-do peito o orgulho
Que ninguém quis amar, ninguém amou.
-Foi-lhe quimera o amor, não mais lembrou-o,
Tentou-o ao menos. -E que importa um morto?
- Doido é quem geme em lagrimar estéril-
Quando o luto findou e alegre o baile
Corre entre flores no valsar, quem lembra
O defunto que é podre no jazigo?
-Morrera-lhe o sonhar-por que chorá-lo?

E morreu sem amor! E ele contudo
Tinha no peito tanto amor e vida!
Alma de sonhos, tão ardentes, cheia!
E anelante do amor do peito-em outro
Em horas ternas efundir em beijos!

E às vezes quando a fronte pela febre
Pesada e quente sobre as mãos firmava,
Quando esse delirar febril da insônia
Em vertigens travava de sua alma,
Um negro pensamento lhe passava
Como um fuzil no cérebro fervente,
E pensava dos loucos no delírio,
Na escura treva da vertigem tonta!
Temia-a morte não-mas-a loucura.
*

Georges Seurat (francês, 1859-1891). Au Divan japonais, conté crayon and gouache on paper. 1887-88, Private Collection.

ORA ATÉ QUE ENFIM
Álvaro de Campos, Poemas

Ora até que enfim..., perfeitamente...
Cá está ela!
Tenho a loucura exatamente na cabeça.
Meu coração estourou como uma bomba de pataco,
E a minha cabeça teve o sobressalto pela espinha acima...

Graças a Deus que estou doido!
Que tudo quanto dei me voltou em lixo,
E, como cuspo atirado ao vento,
Me dispersou pela cara livre!
Que tudo quanto fui se me atou aos pés,
Como a sarapilheira para embrulhar coisa nenhuma!
Que tudo quanto pensei me faz cócegas na garganta
E me quer fazer vomitar sem eu ter comido nada!

Graças a Deus, porque, como na bebedeira,
Isto é uma solução.
Arre, encontrei uma solução, e foi preciso o estômago!
Encontrei uma verdade, senti-a com os intestinos!

Poesia transcendental, já a fiz também!
Grandes raptos líricos, também já por cá passaram!
A organização de poemas relativos à vastidão de cada assunto resolvido em vários —
Também não é novidade.
Tenho vontade de vomitar, e de me vomitar a mim...
Tenho uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o.
Com esforço, mas era para bom fim.
Ao menos era para um fim.
E assim como sou não tenho nem fim nem vida...
*

Arthur Bispo do Rosário (brasileiro, 1911-1989). 'Instalação: Planetas.

OS LOUCOS
António Osório, A Ignorância da Morte

Há vários tipos de louco.

O hitleriano, que barafusta.
O solícito, que dirige o trânsito.
O maníaco fala-só.

O idiota que se baba,
explicado pelo psiquiatra gago.
O legatário de outros,
o que nos governa.

O depressivo que salva
o mundo. Aqueles que o destroem.

E há sempre um
(o mais intratável) que não desiste
e escreve versos.

Não gosto destes loucos.
(Torturados pela escuridão, pela morte?)
Gosto desta velha senhora
que ri, manso, pela rua, de felicidade.
*

SER DOIDO-ALEGRE, QUE MAIOR VENTURA!
António Aleixo, Este Livro que Vos Deixo...

Ser doido-alegre, que maior ventura!
Morrer vivendo p'ra além da verdade.
É tão feliz quem goza tal loucura
Que nem na morte crê, que felicidade!

Encara, rindo, a vida que o tortura,
Sem ver na esmola, a falsa caridade,
Que bem no fundo é só vaidade pura,
Se acaso houver pureza na vaidade.

Já que não tenho, tal como preciso,
A felicidade que esse doido tem
De ver no purgatório um paraíso...

Direi, ao contemplar o seu sorriso,
Ai quem me dera ser doido também
P'ra suportar melhor quem tem juízo.
*

Louise Bourgeois (francesa, 1911-2010). RIP.

DEMASIADA LOUCURA É O MAIS DIVINO JUÍZO

Emily Dickinson, Poemas e Cartas; Trad. Nuno Júdice

Demasiada Loucura é o mais divino Juízo -
Para um Olhar criterioso -
Demasiado Juízo - a mais severa Loucura -
É a Maioria que
Nisto, como em Tudo, prevalece -
Consente - e és são -
Objecta - és perigoso de imediato -
E acorrentado -
*

Bluebird, C. Bukowski [a canção de fundo é Hurt, do Nine Inch Nails, na versão de Johnny Cash!]

EXCERTOS 
F.Nietzsche, A Canção Bêbada

Em ar diáfano,
quando já o consolo do orvalho
ressuma sobre a terra,
invisível e também sem se ouvir
- pois o consolador orvalho traz,
como todos os suavizadores,calçado leve -
lembras-te então,lembras-te,ardente coração,
da tua sede de outrora,
sede de lágrimas celestes e de orvalhos,
tu crestado e cansado,
enquanto sobre atalhos de erva seca
maldosos olhares do sol da tarde
em torno a ti corriam por entre árvores negras,
olhares de sol em brasa,cegantes e cínicos.

"Pretendente da Verdade - tu?" assim eles te escarneciam

"Não!só um Poeta!

um bicho, manhoso, de rapina, rastejante,
que tem de mentir,
que ciente e voluntàriamente tem de mentir,
ávido de presa,
de disfarces multiclores,
de si mesmo disfarce,
de si mesmo presa,
isso - Pretendente da Verdade?...

Só Louco! só Poeta!
Dizendo só coisas multiclores,
falando multiclor por máscaras de louco,
trepando sobre pontes mentirosas de palavras,
sobre arcos-íris de mentiras
entre falsos céus
vagueando, rastejando -
só Louco! só Poeta!...
*

8 comentários:

Assis Freitas disse...

me deixou sem fôlego, preciso ir aos poucos, o pássaro azul quer fugir



cheiro

MIRZE disse...

NININHA!

Quero essa postagem. Toda linda dos loucos. Sempre pensei que Deus dá a loucura para que sejamos felizes.

Um post maravilhoso!

Parabéns, minha menina;

Beijos

Mirze

MIRZE disse...

Atualmente tenho estado em contato com a filosofia.

Queria sua opinião para "A BELEZA DO DESESPERO" que postei.

Pode mandar por e-mail. Mas acho que o filósofo ou louco tem razão;

Beijos

Em Lavínia

Mirze

dade amorim disse...

Gente, é muita riqueza junta, Nina!
Com você consegue sempre juntar tanta lindeza num post só?

Beijins muitos muitos.

MIRZE disse...

NININHA!

FELIZ ANO NOVO em todos os idiomas, com todos os poetas que você nos dá o prazer de ler.

Te quero muito bem.

Beijos

Mirze

cisco zappa disse...

mui mui!!!
o que e quanto mais incomensurável
mais quico! quico tanto que extratosfero mesosfiro...

êta canto bão sô!

e de lambujada: o velho buk!

Eckhartianum disse...

O Louco
Para Altamirando Camacam

Enlouqueci, um girassol nasceu na minha boca.
Os pássaros já estão fazendo ninho
Atrás da minha orelha.
Enlouqueci, o azul explodiu em fevereiro.
Vou conhecer Londres no meu bergantim de pirata.
As ruas são-me passarela para bailar.
Não me conheceis, transeuntes?
Não me conheceis, moça de olhos calmos
Do último andar do edifício?
Sou o Louco.
Prometi as chuvas do mês passado.
Prometi as árvores.
Prometi os vinhos.
Prometi este intenso azul de fevereiro.
Faço promessas maravilhosas.
E vede que se cumprem.
Abram as portas.
Chamem vossos filhos.
Chamem vossas noivas.
Os garotos vão rir de mim.
Por acaso, não quereis que as vossas noivas se divirtam?
Não há quem não ache graça
Do meu aspecto excessivo de profeta.
Convidem todo mundo.
Trago uma flor no bolso de dentro do paletó
Para ofertar ao sorriso mais inocente da cidade.
Não tenham medo.
Não faço mal a ninguém.
Sou o Louco.

Affonso Manta.

Carla Diacov disse...

Ninóvea!!!
Góra que vi minha rabiscagem!!!


Beijo-te!