quinta-feira, 24 de novembro de 2011

[Ano I, No. 12 - 2011] NUVENS

As nuvens são para não serem vistas. - João Guimarães Rosa, in: Nenhum, nenhuma.

Paul Klee (sueco, 1879-1940).

O CÉU DA IMAGEM
José Carlos Avellar, O chão da palavra - Cinema e Literatura no Brasil. Ed. Rocco, 2007.

Nuvens (a flora e a fauna leves de países de vento, diz João Cabral de Melo Neto) são uma presença regular em textos poéticos, como uma possível representação de uma etapa do processo artístico (ou mesmo do artista que, como disse Maiakóvski em 1916 no poema Nuvem de calças / Oblako v shtanakh, se pensa em movimento; “como céu de primavera que muda sem aviso”, Maiakóvski escreve que decide também sem aviso deixar de ser gente: “passo a ser uma nuvem de calças”).

Nuvens: Oswald de Andrade descobriu certa vez que deitadas lá em cima entre as montanhas elas se secavam ao sol; Guimarães Rosa descobriu que na jarra clara da manhã elas planavam qual garças brancas, dançavam qual fadas alvas, cantavam qual almas aladas.

Nuvens (voltemos a João Cabral de Melo Neto: estátuas em vôo a beira mar plantadas ) mais ainda do que nos poemas, são presença regular nas artes plásticas. Mas o fato disto que sempre esteve presente na paisagem (mas por trás da paisagem) saltar para primeiro plano parece ter algo a ver com a invenção da fotografia e do cinema. Talvez, para a sensibilidade formada pelo livro nada mais parecido com nuvem que o registro fotográfico de uma fração mínima de tempo e o registro cinematográfico do tempo passando.

Desta forma, entre 1818 e 1822, ao mesmo tempo em que se inventava o processo fotográfico (principalmente por meio das experências de Nicéphore Niépce) John Constable pintava muito rapidamente estudos de nuvens para deste modo fotografar a leveza dos paises de vento. E entre 1911 e 1915, ao mesmo tempo em que o cinema começa a deixar de ser uma cópia conforma de uma cena real ou de uma cena teatral para inventar um processo narrativo próprio, Emil Nolde enquadra em primeiro plano suas nuvens de verão. E em 1931, ao mesmo tempo em que Eisenstein filma ¡Que viva México! Doctor Atl pinta no céu mexicano nuvens semelhantes às que pouco mais tarde Gabriel Figueora irá colocar nos filmes de Emílio Fernández.
*
John Constable (inglês1776-1837). Estudo de nuvens com árvores no horizonte, 27 de setembro de 1821.

LÍNGUA
Chen Dongdong

As espáduas da rocha se abrem, as asas da fragata se estendem
o sol zumbindo como um escaravelho
entra sem querer na sala branca,
bem mais longe um barco vermelho se achega lentamente como um outro crepúsculo
de verão

Nos meus olhos, entre meus dedos
brilha o sal
e aquela lembrança nas profundezas da mente,
agora ornada de verde, percorre todo o pórtico cantando e dançando muda

Quando as nuvens finalmente se quebram
e cardumes de peixes são empurrados ao pagode do mar
a lâmpada pode incendiar de repente todas as pontas dos ramos
iluminar a tua e a minha língua.
*

Ivan Aivazovsky, Clouds above a sea (detalhe), calm, 1899, óleo sobre tela, 112 x 146 cm. The State Russian Museum, São Petersburg.

FRAGMENTO
Luigi Pirandello, Um, nenhum e cem mil; trad. Maurício Santana Dias.

Ai, ai. Nuvens? Vento? E não lhes parece suficiente perceber e reconhecer que aquilo que veleja luminoso pela vacuidade infindável e azul são nuvens? Ela sabe por acaso que existe, a nuvem? Tampouco os abetos e as pedras sabem dela, os quais ignoram inclusive a si mesmos e estão sozinhos.

Percebendo e reconhecendo a nuvem, vocês podem, meus caros, pensar até na história da água (e por que não?) que se torna nuvem para tornar-se de novo água. Sim, uma grande coisa. E um pobre professorzinho de física já bastaria para lhes explicar esse fenômeno. Mas quem explica o porquê do por quê?
*

John Constable, Cloud study (detalhe), 1822, óleo sobre papel colado em placa, 30,5 x 49 cm. Courtauld Institute Galleries, Londres.

A TERRA É CURVA
Gu Cheng, janeiro 1981

A terra é curva
não consigo ver-te
consigo apenas ver longe
o céu azul no teu coração

azul? Azul
aquele azul é a língua
queria mostrar ao mundo a felicidade
mas o sorriso gela nos cantos da boca

Ou então me dar uma nuvem
para romper as horas ensolaradas
meus olhos precisam de lágrimas
meu sol precisa de sono.
*

Doctor Atl (Gerardo Murillo, mexicano, 1875-1964). A nuvem, 1931. Virtual Museum

NUVENS
Audemir Leuzinger, Poema Dia

Rezando pela minha paz,
Necessário seria que
As folhas ficassem ali, como loucos não varridos.
Nuvem da fumaça dos incensos e defumadores.
Uma imagem para o coletivo de gafanhotos.
Pelas janelas e portas,
Como que em capítulos,
Saí desmembrado dos cômodos da minha casa.
Levando tudo de mais pesado, meu livro.
Autêntico e único original trabalho.
O Breviário de Conjugação das Nuvens.

Nuvens de tantos pássaros,
Como corvos e urubus.
Estas nuvens, de quando em vez,
Se fortalecem pousando na minha sorte.
Refletindo a luz da lua,
Como se de prata fosse,
Uma nuvem de corvos pousou ontem à noite.
Corvos entre as nuvens são como esperanças
No medo das minhas orações.

Em nome de leveza e velocidade
Queria conjugar verbos como "chover"
Na primeira pessoa do singular.
Chover que é sinônimo de purgar no meu Breviário.
Não posso passar em brancas nuvens
Pela tabuada dos rios
Ou pelas equações do gelo.
E muito menos pela anatomia humana.

Se isto acontecer
Deixaria pela primeira vez se perder
A memória da água.
*


Emil Nolde (alemão, 1867-1956). Nuvens de verão, 1913. Acervo do Museu Thyssen-Bornemisza de Madrid.

NUVENS SOBRE A FLORESTA
Alberto Caeiro, Cancioneiro

Nuvens sobre a floresta...
Sombra com sombra a mais...
Minha tristeza é esta
A das coisas reais.

A outra, a que pertence
Aos sonhos que perdi,
Nesta hora não me vence;
Se a há, não a há aqui.

Mas esta, a do arvoredo
Que o céu sem luz invade,
Faz-me receio e medo...
Quem foi a minha saudade?
*


Gina Ruggeri, Cloud Drift II, 2009, Acrylic on Mylar, cut-out 64" x 66".


NUVENS
Álvaro de Campos, Poemas

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
Obrigações morais e civis?
Complexidade de deveres, de consequências?
Não, nada...
O dia triste, a pouca vontade para tudo...
Nada...

Outros viajam (também viajei), outros estão ao sol
(Também estive ao sol, ou supus que estive),
Todos têm razão, ou vida, ou ignorância simétrica,
Vaidade, alegria e sociabilidade,
E emigram para voltar, ou para não voltar,
Em navios que os transportam simplesmente.
Não sentem o que há de morte em toda a partida,
De mistério em toda a chegada,
De horrível em todo o novo...

Não sentem: por isso são deputados e financeiros,
Dançam e são empregados no comércio,
Vão a todos os teatros e conhecem gente...
Não sentem: para que haveriam de sentir?
Gado vestido dos currais dos Deuses,
Deixá-lo passar engrinaldado para o sacrifício
Sob o sol, alacre, vivo, contente de sentir-se...
Deixai-o passar, mas ai, vou com ele sem grinalda
Para o mesmo destino!
Vou com ele sem o sol que sinto, sem a vida que tenho,
Vou com ele sem desconhecer...

No dia triste o meu coração mais triste que o dia...
No dia triste todos os dias...
No dia tão triste...
*

John Constable, Estudo das nuvens. Real Academia das Artes, Londres.


O ESTRANGEIRO
Charles Baudelaire, Les Petits Poèmes en prose, 1869.

- Diga, homem enigmático, de quem gosta mais? De seu pai, de sua mãe, de sua irmã ou de seu irmão?
- Não tenho pai, nem mãe, nem irmã, nem irmão.
- Amigos?
- Você usa de palavras cujo sentido até aqui desconheço.
- Pátria?
- Ignoro a que latitude se situa.
- Beleza?
- Deusa e imortal, de bom grado a amaria.
- O ouro?
- Odeio-o como você odeia a Deus.
- Mas que gosta então, estrangeiro extraordinário?
- Das nuvens... as nuvens que passam... lá longe... lá longe... as maravilhosas nuvens!
*

Yo-Yo Ma toca Prelude from Bach´s Cello Suite No.1. Nuvens sobre Norther Phoenix, Az.

5 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

Nina,

Por que neguinho cisma escrever escaravelho se o normal é dizer besouro?
Escaravelho é do tempo de Charles Darwin, e quando ele era criança...

Bípede Falante disse...

Tantas tantas tantas nuvens que fiquei sem céu :)
Amei o blog!
beijos

Dulce Cavalcante disse...

...caminhei entre estas torres brancas, em vento suspensas e fiquei sem chão,
só a cabeça nas nuvens me denunciava
-eu estava aqui...

Adriana Godoy disse...

Pois é, menina, ando sumida de comentar mas não de estar. Beleza, qualidade total, poesia e tal. Beijos

Felicidade Clandestina disse...

por aqui tudo continua lindo, intenso. gosto dos textos/canções que você seleciona.

beijo, nina.

*vagarosa