segunda-feira, 26 de setembro de 2011

[Ano I, No. 08 - 2011] SONHOS E PÁSSAROS

Fotografia de Paulo Martinez para a Revista MAG, especial Moda surrealista masculina, abril de 2011. Siga com Caetano Veloso, Cucurrucu Paloma, cena do belissímo Hable con ella/ Fale com ela (Espanha, 2002), de Pedro Almodóvar.

Carta a senhorita Ekaterina Fiodorovna Iunge¹
Fiódor Dostoiévski; trad. Robertson Frizero

Petersburgo, 11 de abril de 1880.

[...]
Permita-me que lhe ofereça um conselho que vem direto de meu coração: dedique-se à sua arte com mais empenho ainda do que até hoje pode dar. Sei, por ter ouvido de terceiros (não tome isso como algo ruim de minha parte) que a senhorita não é feliz. Viver sozinha e remoer continuamente as feridas de seu coração, residindo em meio às suas memórias, pode transformar sua vida algo difícil demais para suportar. Há apenas uma cura possível, um refúgio: a arte, a atividade criativa.

*Ekatehina Fiodorovna Iunge (1843-1913), artista plástica russa, filha do pintor russo Fiódor Robertson Tosltói.
*

Poema 20
Pablo Neruda, Veinte poemas de amor y una canción desesperada

PUEDO escribir los versos más tristes esta noche. 
Escribir, por ejemplo: " La noche está estrellada,  
y tiritan, azules, los astros, a lo lejos". 

El viento de la noche gira en el cielo y canta. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Yo la quise, y a veces ella también me quiso. 

En las noches como ésta la tuve entre mis brazos.  
La besé tantas veces bajo el cielo infinito. 

Ella me quiso, a veces yo también la quería.  
Cómo no haber amado sus grandes ojos fijos. 

Puedo escribir los versos más tristes esta noche.  
Pensar que no la tengo. Sentir que la he perdido. 

Oír la noche inmensa, más inmensa sin ella.  
Y el verso cae al alma como pasto el rocío. 

Qué importa que mi amor no pudiera guardarla.  
La noche está estrellada y ella no está conmigo. 

Eso es todo. A lo lejos alguien canta. A lo lejos.  
Mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Como para acercarla mi mirada la busca.  
Mi corazón la busca, y ella no está conmigo. 

La misma noche que hace blanquear los mismos árboles.  
Nosotros, los de entonces, ya no somos los mismos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero cuánto la quise.  
Mi voz buscaba el viento para tocar su oído. 

De otro. Será de otro. Como antes de mis besos.  
Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. 

Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero.  
Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. 

Porque en noches como ésta la tuve entre mis brazos,  
mi alma no se contenta con haberla perdido. 

Aunque éste sea el último dolor que ella me causa,  
y éstos sean los últimos versos que yo le escribo. 
*

Renè Magritte (belga, 1898-1967), O Terapeuta. 152.4 x 133.4 x 85.1 cm. Acervo do Museu Hirshhom e Jardim das Esculturas, Washington, D.C. Siga com Manu Chao, La despedida.

No fim da vida, já doente, Magritte se dedicou à escultura e, ao fazer esculturas dos temas de suas telas, ele desenvolvia a tese da correlação entre as realidades material e mental. O terapeuta, em bronze, é uma escultura baseada em oito de suas telas. Como sempre, Magritte pintava inúmeras vezes o mesmo tema, sempre com uma visão diferente. O terapeuta, na realidade, aparecia em suas obras desde 1936; em 37, o próprio artista se fez fotografar, na mesma pose, com um cobertor em cima da cabeça e uma tela junto ao peito, no lugar da gaiola. Magritte faleceu, aos 69 anos e deixou o molde de sua obra inteiramente pronto, mas não chegou a vê-la em bronze.
*

versão em linha reta de poema de emily d.
nina rizzi

nessa tão curta vida - só uma hora pra tanta beleza, comoção, desespero. quanto - quão pouco ao nosso alcance. (dilacera.)
*

O SONHO E A REVOLUÇÃO
Jean Schuster, Le Libertaire, 26 de outubro de 1951

            O sonho não é o contrário da realidade. Ele é um aspecto real da vida humana, assim como a ação; e um e outra, bem longe de se excluírem, se completam. Mas, este aspecto, negligenciado  ou voluntariamente relegado ao plano das superstições perigosas pela civilização atual (a das casernas, das igrejas e das delegacias) contém os fermentos de revolta mais violentos, por serem os mais profundamente humanos. Compreende-se que a vontade de obscurantismo dos maitres à penser seja sempre manifestada por um desprezo total em relação ao sonho. Sua inteligência se limitou a tolerar (e talvez a favorecer) a difusão da “Chave dos Sonhos”, obras desnaturadas, de caráter puramente supersticioso, fantasioso ou idiota. Mas os povos que o odioso bom senso europeu se obstina em denominar “primitivos” (primitivos porque nunca conhecerão os segredos da bomba atômica, ou simplesmente da hipocrisia diplomática) concedem ao sonho um lugar de primeiro plano.

            Freud, desvelando o mecanismo do sonho, interpretando-o, demonstrou que ele constituía o perfeito revelador das tendências e dos desejos mais secretos do homem. Sabe-se agora que não existe sonho gratuito, que pelo simples fato de sonhar o homem muda o seu destino, mesmo que essa mudança permaneça imperceptível. Desperto, o homem apreende do mundo o que sua razão e seus sentidos bem quiserem lhe deixar aperceber, isto é, uma ínfima parte do que realmente é; em sonho, os objetos, os sentimentos, as relações mais audaciosas tornam-se-lhes lícitas, familiares. Desceu ao coração de si mesmo, ao coração das coisas.

            Isto é válido tanto para as coletividades quanto para os indivíduos. Se o sonho é a expressão do desejo, se a explicação de um pode preludiar, numa certa medida, a realização do outro, o maior desejo coletivo é a revolução G. C. Lichtenberg lamentava que a história fosse feita unicamente da narrativa dos homens despertos. Quando, numa noite, todos os explorados sonharem que é preciso acabar e como acabar com o sistema tirânico que os governa, aí então, talvez, a aurora surgirá sobre todo o mundo, sobre barricadas.
*

Carta
Nelson Saúte, Viagem Profana, 2003

Dorme. Sonha com pássaros.
Eles saem do meu coração.
*

4 comentários:

Mariana Botelho disse...

nina, linda,

seus sempre tão caprichados posts...

cucurrucu paloma me faz chorar. entre outras coisas.

beijo

nana

CANTO GERAL DO BRASIL (e outros cantos) disse...

Nina,
Sempre uma viagem vir-me aqui, um tirar gaiola aos pássaros...

Adriana Karnal disse...

Nina,
o homem do chapéu coco é o máximo.
adoro a moda, sabia? rs

Aline disse...

maravilha de postagem.
preciosos textos.

que bom.