quarta-feira, 12 de outubro de 2011

[Ano I, No. 10 - 2011] CORPO

Que abrigo viver (com outrem), no futuro que nos é próprio. A linguagem da réplica não falha: «Sim, sim. Não, não.»
- M. G. Llansol

Wilhelm Prager, Ways to strength and beauty. Degenerate art, da Alemanha Nazista. Siga com '030', com The Good The Bad

FRAGMENTO
João Gilberto Noll, A Fúria do Corpo

          Afrodite está de pé em cima de um banco do calçadão da Atlântica e em volta o bloco de sujos a saúda pulando em círculo, Afrodite me vê e vejo que seus seios estão quase inteiramente à mostra fugindo do vestido amarelo vivo rasgado e sujo de graxa pó e sangue, mas Afrodite é a deusa da celebração dos sujos, Afrodite me vê agora mais próximo e convida a que eu participe da festa ao bezerro de ouro dos sujos ela fala, eles serão atingidos pela ira divina só na quarta-feira-de-cinzas, por enquanto me celebram e cantam minha beleza minha carne, santo é o Carnaval senhor da alegria, santa é a simulação da festa, santo é o nome da beleza da carne, santa é a histeria da promiscuidade, santo é o fingimento do encanto, santo santo santo o bloco dos sujos grita num compasso de marcha, santo santo santo eu entôo na minha voz de barítono, santo santo santo é o que cantam os passantes com ar de naturalidade como nos velhos musicais da Metro, santo santo santo é o coro final que retumba da boca de todos os passantes aglomerados em torno num esplendoroso musical em ritmo de marchinha carnavalesca, santo santo santo é o que mostraria a câmara subindo em grua até as nuvens, santo santo santo a Atlântica inteira repete entoando em coro num cenário noturno tropical, santo santo santo é o nome de todas as bobagens e de todas as mentiras.
          Ao final do espetáculo tomo Afrodite nos braços, seu peso é leve, eu a contenho com a sensação de carga etérea, Afrodite me beija no Carnaval da Atlântica, digo que ela é minha, Afrodite morde um dos meus lóbulos, a seda suíça estropiada ainda resplandece o amarelo vivo...
*

POEMA
Alexandre O'neill

Sei os teus seios.
Sei-os de cor.

Para a frente, para cima,
Despontam, alegres, os teus seios.

Vitoriosos já,
Mas não ainda triunfais.

Quem comparou os seios que são teus
(Banal imagem) a colinas!

Com donaire avançam os teus seios,
Ó minha embarcação!

Porque não há
Padarias que em vez de pão nos dêem seios
Logo p'la manhã?

Quantas vezes
Interrogaste, ao espelho, os seios?

Tão tolos os teus seios! Toda a noite
Com inveja um do outro, toda a santa
Noite!

Quantos seios ficaram por amar?

Seios pasmados, seios lorpas, seios
Como barrigas de glutões!

Seios decrépitos e no entanto belos
Como o que já viveu e fez viver!

Seios inacessíveis e tão altos
Como um orgulho que há-de rebentar
Em deseperadas, quarentonas lágrimas...

Seios fortes como os da Liberdade
-Delacroix-guiando o Povo.

Seios que vão à escola p'ra de lá saírem
Direitinhos p'ra casa...

Seios que deram o bom leite da vida
A vorazes filhos alheios!

Diz-se rijo dum seio que, vencido,
Acaba por vencer...

O amor excessivo dum poeta:
"E hei-de mandar fazer um almanaque
da pele encadernado do teu seio"
(Gomes Leal)

Retirar-me para uns seios que me esperam
Há tantos anos, fielmente, na província!

Arrulho de pequenos seios
No peitoril de uma janela
Aberta sobre a vida.

Botas, botirrafas
Pisando tudo, até os seios
Em que o amor se exalta e robustece!

Seios adivinhados, entrevistos,
Jamais possuídos, sempre desejados!

"Oculta, pois, oculta esses objectos
Altares onde fazem sacrifícios
Quantos os vêem com olhos indiscretos"
(Abade de Jazente)

Raimundo Lúlio, a mulher casada
Que cortejaste, que perseguiste
Até entrares, a cavalo, p'la igreja
Onde fora rezar,
Mudou-te a vida quando te mostrou
("É isto que amas?")
De repente a podridão do seio.

Raparigas dos limões a oferecerem
Fruta mais atrevida: inesperados seios...

Uma roda de velhos seios despeitados,
Rabujando,
A pretexto de chá...

Engolfo-me num seio até perder
Memória de quem sou...

Quantos seios devorou a guerra, quantos,
Depressa ou devagar, roubou à vida,
À alegria, ao amor e às gulosas
Bocas dos miúdos!

Pouso a cabeça no teu seio
E nenhum desejo me estremece a carne.

Vejo os teus seios, absortos

Sobre um pequeno ser
*

Cáp. 68
Júlio Cortázar, Rayuela

"Apenas él le amalaba el noema, a ella se le agolpaba el clémiso y caíanen hidromurias, en salvajes ambonios, en sustalos exasperantes. Cadavez que él procuraba relamar las incopelusas, se enredaba en un grima-do quejumbroso y tenía que envulsionarse de cara al nóvalo, sintiendo cómo poco a poco las arnillas se espejunaban, se iban apeltronando, reduplimiendo, hasta quedar tendido como el trimalciato de ergomanina al que se le han dejado caer unas fílulas de cariaconcia. Y sin embargoera apenas el principio, porque en un momento dado ella se tordulabalos hurgalios, consintiendo en que él aproximara suavemente sus orfelu-nios. Apenas se entreplumaban, algo como un ulucordio les encresto-riaba, los extrayuxtaba y paramovía, de pronto era el clinón, la esterfu-rosa convulcante de las mátricas, la jadehollante embocapluvia del orgu-mio, los esproemios del merpasmo en una sobrehumítica agopausa. ¡Evohé! ¡Evohé! Volposados en la cresta del murelio, se sentían balpa-ramar, perlinos y márulos. Temblaba el troc, se vencían las marioplumas, y todo se resolviraba en un profundo pínice, en niolamas de argutendidasgasas, en carinias casi crueles que los ordopenaban hasta el límite de las gunfias. "
*

‎Acima do nível das mais altas cristas, um mar atormentado pelo eterno nascimento de Vênus, repleto de frotas orfeônicas e do murmúrio de pérolas e conchas preciosas...  - Artur Rimbaud, Iluminuras

4 comentários:

Evandro L. Mezadri disse...

Muito legal essa poesia, bem escrita, seu blog é muito interessante!
Grande abraço e sucesso!

JL Cancio disse...

De Cortazar me gustan más sus cuentos. BESTIARIO es excelente. Tu post también. Un beso!

Aline disse...

surtei por interesse.

que postagem maravilhosa.

que texto! surtei.

Adriana Karnal disse...

nina, não te cansas de ser tão poeta???rsrs