domingo, 26 de junho de 2011

[Ano I, No. 04 - 2011] ANNE SEXTON

Anne Sexton; desconheço autoria da fotografia. Siga com ZAZ, Je veux.

The Ballad of the Lonely Masturbator
Anne Sexton

The end of the affair is always death. 
She's my workshop. Slippery eye, 
out of the tribe of myself my breath 
finds you gone. I horrify 
those who stand by. I am fed. 
At night, alone, I marry the bed.

Finger to finger, now she's mine. 
She's not too far. She's my encounter. 
I beat her like a bell. I recline 
in the bower where you used to mount her. 
You borrowed me on the flowered spread. 
At night, alone, I marry the bed.

Take for instance this night, my love, 
that every single couple puts together 
with a joint overturning, beneath, above, 
the abundant two on sponge and feather, 
kneeling and pushing, head to head. 
At night alone, I marry the bed.

I break out of my body this way, 
an annoying miracle. Could I 
put the dream market on display? 
I am spread out. I crucify. 
My little plum is what you said. 
At night, alone, I marry the bed.

Then my black-eyed rival came. 
The lady of water, rising on the beach, 
a piano at her fingertips, shame 
on her lips and a flute's speech. 
And I was the knock-kneed broom instead. 
At night, alone, I marry the bed.

She took you the way a woman takes 
a bargain dress off the rack 
and I broke the way a stone breaks. 
I give back your books and fishing tack. 
Today's paper says that you are wed. 
At night, alone, I marry the bed.

The boys and girls are one tonight. 
They unbutton blouses. They unzip flies. 
They take off shoes. They turn off the light. 
The glimmering creatures are full of lies. 
They are eating each other. They are overfed. 
At night, alone, I marry the bed.
*

Balada da masturbadora solitária
Anne Sexton; trad. Nina Rizzi

O fim do caso é sempre morte.
Ela é minha oficina. Olho escorregadio,
pra dentro de minha tribo. O meu fôlego
acha que você foi. Eu vejo horrorizada
aqueles que estão aqui. Eu sou alimento e alimentada.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

Dedo com dedo, agora ela é minha.
Ela não está muito longe. Ela é o meu encontro.
Eu batia como um sino. Eu reclinava
no pavilhão onde você usou para a montagem dela.
Você emprestou-me as hastes, florido.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

Tomemos por exemplo esta noite, meu amor,
que cada casal só se reúne
com uma inversão conjunta, abaixo, acima,
os dois abundantes na esponja e pena,
ajoelhado e empurrando, cabeça a cabeça.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

Eu saio do meu corpo dessa forma,
um milagre irritante. Eu poderia
colocar os sonhos de mercado em exibição?
Estou espalhada. Eu crucifico.
Minha ameixa é pouca é o que você disse.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

Então, meu rival de olhos pretos veio.
A senhora da água, levantando-se na praia,
um piano na ponta dos dedos, vergonha,
nos lábios e fala uma flauta.
E eu estava com a vassoura batendo nos joelhos desta vez.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

Ela tomou-lhe o caminho, a mulher toma
um vestido de negócio fora da cremalheira
e eu quebro a forma como um quebra pedras.
Eu entrego de volta os seus livros e materiais de pesca.
O jornal de hoje diz que você é casado.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.

Os meninos e meninas são uma coisa hoje em dia, à noite.
Eles desabotoam blusas. Eles encarceram moscas.
Eles tiram os sapatos. Eles desligam a luz.
As criaturas em seus reflexos estão cheias de mentiras.
Eles estão comendo uns aos outros. Eles são superalimentados.
À noite, sozinha, eu me caso com a cama.
*

Michelle Bloom, Anne Sexton and favorite poetry, pintura a óleo. Siga com a Dance of the Blessed Spirits, Pina Bausch.

Music Swims Back to Me
Anne Sexton

Wait Mister. Which way is home? 
They turned the light out 
and the dark is moving in the corner. 
There are no sign posts in this room, 
four ladies, over eighty, 
in diapers every one of them. 
La la la, Oh music swims back to me 
and I can feel the tune they played 
the night they left me 
in this private institution on a hill.

Imagine it. A radio playing 
and everyone here was crazy. 
I liked it and danced in a circle. 
Music pours over the sense 
and in a funny way 
music sees more than I. 
I mean it remembers better; 
remembers the first night here. 
It was the strangled cold of November; 
even the stars were strapped in the sky 
and that moon too bright 
forking through the bars to stick me 
with a singing in the head. 
I have forgotten all the rest.

They lock me in this chair at eight am 
and there are no signs to tell the way, 
just the radio beating to itself 
and the song that remembers 
more than I. Oh, la la la, 
this music swims back to me. 
The night I came I danced a circle 
and was not afraid. 
Mister? 
*

A música nada de volta para mim
Anne Sexton; trad. Nina Rizzi

Senhor, espere. O caminho é o lar?
Eles levaram a luz para fora
e a escuridão está se movendo no canto.
Não há jeito de entrar nesta sala,
quatro senhoras, mais de oitenta,
usando fraldas como urinol.
La la la, Oh música nada de volta para mim
e eu posso sentir a melodia que jogaram
a noite eles me deixaram
nesta instituição privada em uma colina.

Imagine-o. O rádio a tocar
e todo mundo aqui, foi uma loucura.
Eu gostei e dançamos em um círculo.
A musica derrama sobre o sentido
e de uma forma engraçada
a música vê mais do que eu
Quero dizer que se lembra melhor;
se lembra da primeira noite aqui.
Foi o frio estrangulador de novembro;
até mesmo as estrelas foram amarradas no céu
e a lua era muito brilhante
uma guilhotina através das grades para ficar
com um canto da cabeça.
Esqueci tudo o resto.

Travam-me nesta cadeira por oito horas
e não há sinais de dizer o caminho,
apenas o rádio do espancamento de si mesmo
e a canção que se lembra
mais do que eu Oh, la la la,
essa música nada de volta para mim.
A noite eu vim. Eu dancei um círculo
e não estava com medo.
Senhor?
*

Anne Sexton, Scrapbook Virginia Veach, publicado no Washington Post, 1948.


Fantasmas
Anne Sexton; trad. Priscila Manhães

Alguns fantasmas são mulheres, 
nem abstratas nem pálidas, 
seus peitos tão flácidos como peixes mortos.
Não bruxas, mas fantasmas
que vêm, balançando seus braços inúteis
como empregados descartados.

Nem todos os fantasmas são mulheres,
tenho visto outros;
homens gordos de brancas barrigas, 
desgastando seus genitais como trapos.
Não demônios, mas fantasmas.
Na batida do pé descalço, arrastando-se 
sobre minha cama.

Porém isso não é tudo.
Alguns fantasmas são crianças.
Não anjos, mas fantasmas;
ondulando como xícaras rosadas
em qualquer almofada, ou esperneando
mostrando seus traseiros inocentes, lamentando
para Lucifer. 
*

Anne Sexton, Scrapbook Virginia Veach, publicado no Washington Post, 1948.

POEMA
Anne Sexton; trad. Maria

Bonecas,
aos milhares,
estão a cair do céu
e eu olho para cima com medo
e pergunto-me quem as irá apanhar?
As folhas, segurando-as como pratos verdes?
Os charcos, abertos como copos de vinho
para as beber?
Os topos dos edifícios para se esmagarem nas suas barrigas
e deixa-las ali para ganhar fuligem?
As auto-estradas com as suas peles duras
para que sejam atropeladas como almiscareiros?
Os mares, à procura de algo que choque os peixes?
As cercas eléctricas para lhes queimar os cabelos?
Os campos de milho onde podem estar sem ser colhidas?
Os parques nacionais onde séculos mais tarde
Serão encontradas petrificadas como bebés de pedra?

Eu abro os braços
e apanho
uma,
duas,
três…dez ao todo
a correr para a frente e para trás como um jogador de badmington,
apanhando as bonecas, os bebés onde eu pratico,
mas outras estilhaçam-se no telhado
e eu sonho, acordada, eu sonho com bonecas a cair.
que precisam de berços e cobertores e pijamas,
com pés verdadeiros
Porque é que não há uma mãe?
Porque é que estas bonecas todas estão a cair do céu?
Houve um pai?
Ou os planetas cortaram buracos nas suas redes
e deixaram a nossa infância sair,
ou somos nós as próprias bonecas,
nascidas mas nunca alimentadas.
*

Anne Sexton, The Interrogation of the Man of Many Heart. Siga com a leitura de Anne Sexton para Her Kind, seu mais famoso poema.

A INTERROGAÇÃO DO HOMEM DE MUITOS CORAÇÕES
Anne Sexton; trad. Nina Rizzi

pedras do rio
têm sugado os olhos dos homens secos

(como eu)
*

eu bem compreendo
sim, amor
a situação dessas mulheres
traídas, indesejadas, tristes

lembra:
vivo situações, sinto

sinto muito

eu também sou uma mulher.

[bem muito, nina rizzi]
*

- LEIA mais poemas de Anne Sexton na Germina, Revista de Literatura e Arte.
- PARA saber mais sobre Anne Sexton, vá para a Wikipédia.
- TAMBÉM poderá gostar de ler a edição sobre Sylvia Plath (e Ted Hugues), poetisa e amiga de Anne Sexton.
*

9 comentários:

platero disse...

bom trabalho

de escrita e tradução

beijo

Marcos Satoru Kawanami disse...

Anne Sexton é um nariz uma mulher? Lembrou-me do romance policial do gás letal de Sexton Blake.

Papagaio Mudo disse...

Nina,

Que poeta deslumbrante.
Adorei a forma como expuseste a obra. Maravilha.
Abraços,

Gus

grafismos disse...

a leveza machuca.

Marcos Satoru Kawanami disse...

se a leveza machuca, o fará um elefante...

Adriana Godoy disse...

Maravilhoso trabalho, Ninuska! Vc é foda mesmo! Beijo

Adriana Karnal disse...

parece meu pseudônimo " ann dixson", rsrsrsrr
vc dá uma ótima tradutora

Assis Freitas disse...

poderio de sintagmas, pound diria fanopéia


cheiros

Anna Apolinário disse...

Sexton é uma grande poeta, é uma lástima não ter nenhum livro dela traduzido e editado aqui no Brasil...